(11) 94066-0279   (11) 5535-4695   

Newsletter

Receba as nossas notícias e novidades em seu e-mail:

Parceiros

Os meninos da Tailândia e o antro de Trofônio. A caverna e sua simbologia arquetípica.

 

Em junho e julho passados o mundo parou para acompanhar a saga de 12 meninos e seu técnico de futebol presos   numa caverna na Tailândia A comoção foi geral e o fato rendeu uma ampla cobertura da imprensa mundial, em tempo real. Parecia um daqueles seriados eletrizantes que assistimos numa sentada, horas a fio sem levantar do sofá. Mas por que será que este episódio fascinou e impactou tanto a psique coletiva? A que motivos arquetípicos ele nos remete?  

 O episódio sobejamente conhecido por aqueles que acompanham minimamente o noticiário internacional refere-se a uma exploração de caverna realizada por um técnico com seus 12 alunos (de 11 a 16 anos) de um time de futebol tailandês. A evacuação da caverna pelo grupo foi frustrada por fortes chuvas que inundaram sua entrada e empurraram o grupo mais e mais para o fundo da mesma   até ficarem isolados a quase 3 km da entrada. Este trecho percorrido apresenta passagens estreitas e apertadas, com câmeras que  foram se  inundando atrás  deles e estes  se  viram obrigados a adentrar na   escuridão do percurso até a prainha  onde  foram encontrados ,ao fundo da caverna, num ambiente  frio, úmido e escuro, onde  sobreviveram por 10 dias até serem encontrados e  resgatados 7 dias  depois  .Comeram as poucas sobras  de  comida que levavam e  tomaram água  que minava  das paredes da caverna. Ao final foram todos resgatados com vida mediante uma gigantesca operação internacional envolvendo mais de mil pessoas, entre mergulhadores, militares e equipe de apoio.

A caverna consoante Chevalier (2015) é o arquétipo do útero materno, figura entre os mitos de origem, de renascimento e de iniciação de numerosos povos. Nas tradições iniciáticas gregas ela simboliza o mundo. Para Platão este mundo é lugar de ignorância, escuridão e sofrimento. No mito da caverna de Platão vemos os homens encerrados em cavernas escuras, acorrentados pelos pés e pescoço, só conseguem ver a sombra dos objetos projetados por uma fogueira na   entrada da caverna. Segundo Platão, isto é tudo que os homens podem ver e daí sua ignorância, pois o conhecimento das coisas como elas são depende do espírito crítico da razão, dado que o mundo dos sentidos é falho e nos engana. Só a libertação da caverna para o mundo de luz, ou seja, o mundo das ideias mostraria a verdade das coisas.

A caverna, neste sentido apresenta um aspecto simbólico mais trágico, ainda segundo Chevalier (2015):


O antro, cavidade sombria, região subterrânea de limites invisíveis, terrível abismo, que habitam e de onde surgem os monstros, é o símbolo do inconsciente e dos perigos muitas vezes inesperados. (p.214).


            O mito do antro de Trofônio , um dos mais  célebres símbolos do inconsciente (CHEVALIER  ,2015) pode  lançar  uma  luz  na  compreensão do episódio a que aqui nos referimos .Trofônio , rei e arquiteto de uma pequena  região construiu ,com ajuda  de  seu irmão Agamedes, o Oráculo de Delfos, e depois edificou uma  construção para o rei Hirieu onde  este  guardaria seus tesouros.Agamedes tentou surrupiar o tesouro do rei  Hirieu  ,mas foi pego e aprisionado. Trofônio, com receio de ser reconhecido pelos traços fisionômicos do irmão e também culpabilizado pelo crime, corta-lhe a cabeça, mas no mesmo instante é submerso pela terra, passando a morar num antro dentro da terra, numa floresta. Muito tempo depois uma seca se abate sobre aquela egião e ao ser consultada, Pítia (sacerdotisa de Apolo) orienta os moradores a se dirigirem ao antro de Trofônio e lá obterem a resposta do infortúnio climático.  Mas o acesso ao antro era desafiador e  amedrontador  , pois o consulente deveria adentrar uma sequência de vestíbulos subterrâneos e de  grutas que  levavam a uma  caverna  de  cova  fria ,medonha e  negra.A chegada  ao fim da caverna  era  por um a passagem  muito estreita por onde passavam os pés e  depois o corpo com grande  dificuldade, despencando-se  em uma  lagoa .A volta era mais árdua  ainda  , com as pernas  entrando primeiro e depois o corpo  de  ponta a  cabeça .O percurso era  infestado por  serpentes que deveriam ser  despistadas com mel ,acalmando-as. Os incrédulos  jamais voltavam de  lá; os crédulos voltavam e  na  chegada sentavam num banco denominado Mnemósine ( deusa da memória )e  evocam as terríveis impressões e verdades emitidas pelo oráculo  que as  marcariam ad aeternum .A consulta ao antro simbolizaria a necessidade de se  conhecer seu lado sombrio , doloroso, guardado a sete  chaves ,pois degolar  o irmão      ( inconsciente) não o faz  desaparecer ,apenas  o esconde  nas  profundezas escuras da  alma. A caverna simbolizaria então a exploração do eu interior, mais primitivo. Também coloca em comunicação o primitivo com as potências ctônicas da morte e da germinação (CHEVALIER 2015).

            Escusado assinalar a semelhança do caminho percorrido pelos meninos e seu técnico na Tailândia e dos consulentes do oráculo de Trofônio. Estes últimos, entretanto, precisavam fazer a consulta oracular para se livrarem da seca   e da morte. Aqueles fizeram a descida ao antro devido a uma exploração despretensiosa e inocente, foram tomados de assalto e levaram todos ao redor do mundo que os acompanharam em sua saga. Os símbolos arquetípicos da caverna foram reavivados, e numinosamente nos atingiram como um raio e colou nossos olhos e almas   nas telas dos noticiários. Mergulhadores heróis entraram em cena, como num parto, pois os meninos e seu técnico estavam quase que totalmente submersos na "caverna uterina" quase em sofrimento fetal, necessitando vir à luz. O parto foi feito às pressas e com grande precisão e diligência, apanágio dos heróis.

Jung diz que não se pode voltar ao útero materno, e que esta interdição deve ter sido ensejada pela proibição do incesto, como explica:

"... a base do desejo incestuoso não é a coabitação , mas a ideia de  voltar a ser  criança, retornar ao abrigo dos pais , penetrar na mãe  para novamente  dela nascer .E para esta  finalidade surge um obstáculo, o incesto: a  necessidade  de penetrar  no ventre materno de  uma forma  qualquer." (JUNG, 2013, §332.)

A caverna  é  compreendida   , dentro da polaridade deste  símbolo, como um local de  nascimento, de  germinação ,mas para  onde  não se pode  voltar e aí permanecer ;   também como um local oracular  e de   peregrinação ,onde  se  vai com grande dor e  esforço em busca de verdades viscerais e revelações impostergáveis .Nela há  nascimento ,  vida e  renovação ,mas  também escuridão e morte . Voltar a ela e dela regressar com sabedoria oracular possibilita integração e ampliação de consciência, desde que se acredite e se entregue à força deste processo. Daí, surgem novos símbolos que nos comunicam uma nova realidade, mais ampla e integrada.  

A permanência definitiva na caverna leva à morte. A escuridão e a ignorância urgem a presença da luz, da luminosidade do mundo das ideias, consoante   Platão. Mas paradoxalmente, é na escuridão, que se escondem nossas mais duras verdades que precisam ser resgatadas num percurso muitas vezes sinuoso, escuro e medonho, mas sem o qual não haverá luz. Alguns mergulhadores envolvidos no resgate dos meninos disseram ter  sentido uma ação divina.Na psicologia junguiana ,o  Si-mesmo ( selbest) seria da  mesma  substancia desta força " divina " que nos une  em profundidade .Se conseguimos entender  seus  chamados e sinais   podemos seguir   integrando o consciente e o inconsciente e  esta coniunctio é  sagrada, embora  misteriosa e não passível de  controle exclusivo  do ego .É ela quem nos  dá um sentimento de integralidade e de  totalidade , de  estarmos próximos a Deus.

Como heróis saíram todos os meninos e seu técnico e agora fazem parte de um mito reeditado que será contado em livros e filmes. Eles reeditam o mito de Trofônio e de tantos outros ligados à simbologia da caverna, dos antros. Passaram por caminhos sinuosos e tortuosos. Por serem crédulos voltaram . Só os crédulos retornam, ensina o mito. Crer na força de transformação de nossas empreitadas ao inconsciente é libertador!

 

 REFERÊNCIAS

 

CHEVALIER, J., GHEERBRANT, A.  Dicionário de Símbolos, Ed. José Olympio. São Paulo ,2015

JUNG, C.G. Símbolos de  transformação .Ed.Vozes. São Paulo ,2013

PLATÃO, República. Ed. Best Sellers. Rio de Janeiro 2002.

 

*Luiz Humberto Carrijo dos Santos.

Médico psiquiatra. Especialista em Psicologia Junguiana pelo IJEP. Analista Junguiano em formação.

Rua dos Girassóis 180. Bairro Cidade Jardim -Uberlândia.MG

34 -3235-1964 / 34-99991-8103

 

 

Newsletter

Receba as nossas notícias e novidades em seu e-mail:

Parceiros