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Os homens exploradores, criativos e curadores

 

"Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos."

C. G. Jung


"Ninguém nos diz que talvez seja a nossa antiga maneira de ser que precisa ser mudada, que a possibilidade de criação e vigor não estão completamente perdidas" (PRÉTAT, 1997, p. 12). Essa capacidade de criação e ao mesmo tempo de aceitação deveriam ser mais exploradas e de forma criativa pelo homem, como possibilidades de, conscientemente sobrepujar os conflitos com os quais convivemos cotidianamente e plasmar novas atitudes e novos corpos. E os mitos podem nos inspirar neste caminho e exemplificar comportamentos.

A vida e a morte estão entrelaçadas na mitologia e no culto a Dioniso. López-Pedraza aprofundou este estudo e nos diz que "na concepção órfica do mito de Dioniso, ele e os titãs são os protagonistas de duas forças personificadas - a dionisíaca e a titânica - e em oposição dentro da natureza humana" (2002, p. 11). O bebê Dioniso foi esquartejado e devorado pelos titãs. "Atená, outros dizem Demeter, salvou-lhe o coração que ainda palpitava. Engolindo-o, a princesa tebana Sêmele tornou-se grávida do segundo Dioniso. (...) O mito possui muitas variantes, principalmente aquela segundo a qual fora Zeus quem engolira o coração do filho, antes de fecundar Sêmele" (JUNITO, 1991, p. 119). Era chamado de Dioniso-Zagreu. "Zeus fulminou os titãs e de suas cinzas nasceram os homens" (JUNITO, 1991, p. 118). A natureza humana, portanto, contém uma porção divina de Dioniso e outra porção dos titãs; essas forças podem ser percebidas tanto nos níveis internos quanto nos níveis externos da realidade e estão em permanente conflito. "Esta é a essência do mito e o traço mais marcante para a reflexão psicológica" (LÓPEZ-PEDRAZA, 2002, p. 11).

Temos dentro de nós o humano e o divino o que nos dá características muito especiais. Do humano, podemos destacar algumas - errar, morrer e transformar - que são libertadoras. Errar o alvo e recolocar a vida em direção, num sentido - que será provisório - e novamente tentar... essa dinâmica nos mantem atentos e vigilantes... e as transformações vão ocorrendo... A perspectiva da morte traz um senso de urgência - a vida passa - e a atividade e o repouso vão se alternando... Do divino, penso que a capacidade criativa é fenomenal! O mundo é nossa obra, somos co-criadores, o deus está dentro de nós, o si-mesmo, a imago-dei... com a evolução da consciência através dos séculos, a atuação benfazeja ou maléfica dos deuses se faz através dos homens... e esse livre-arbítrio, que nos faz sentir deuses, esta liberdade, se expressa no mundo..  mas pelo caráter humano, "nos limites do campo da consciência" (JUNG, 1986, §9). É conflito, exploração e criatividade acontecendo continuamente!

O processo acima, que pode ser descrito como uma ‘iniciação dionisíaca, ocorre ao longo da vida, a fim de propiciar, constantemente, um movimento psíquico. Um determinado trauma que começa na infância, traz a analogia com o desmembramento de Dioniso nas mãos dos titãs e assim continua pelas outras fases da vida: a puberdade, a adolescência, a juventude, a maturidade e a velhice, finalizando com a iniciação à morte. Em outras palavras, essas iniciações podem dar uma resposta mais adequada a cada etapa da vida. Não prosseguir nesta trajetória pode significar doença física ou paralisia psíquica. A medicina psicossomática nos diz que a saúde depende do fato de viver-se plena e psiquicamente cada etapa da vida. Este processo dionisíaco costuma proporcionar uma nova consciência. É como uma espiral de adaptação...

Esse diálogo da mente com o corpo também demonstra nosso potencial divino, de cura (atualmente atribuída apenas aos profissionais da doença... será?). O complexo do ego, conforme Jung no texto O Eu, é constituído por 2 bases, a somática e a psíquica. E ambas as partes tem componentes conscientes e inconscientes. A base somática vem das sensações endossomáticas que apenas em parte atingem o limiar da consciência ganhando caráter psíquico; outra parte fica completamente inconsciente. A base psíquica também "se assenta, de um lado, sobre o campo da consciência global e, de outro, sobre a totalidade dos conteúdos inconscientes." (JUNG, 1986, §4). Inclusive ele salienta que a formação do ego a partir do inconsciente "resulta, em primeiro lugar, do entrechoque do fator somático com o mundo exterior, e uma vez que existe como sujeito real, desenvolve-se em decorrência de entrechoques posteriores, tanto com o mundo exterior como com o mundo interior" (JUNG, 1986, §6). Magaldi sintetiza afirmando que "o funcionamento inadequado da psique produz danos corporais, assim como, de forma inversa, o problema corporal afeta a psique; estamos assumindo que a união psique e corpo é inextricável e que não podem sem separados nem cuidados isoladamente, pois ambos são animados pela mesma força nomeada energia vital" (2000, p.25).

Desta forma corpo e mente, deuses e homens estão fundidos na ocupação dos planetas. Vamos explorando o caminho, em parte de forma consciente e em parte de forma inconsciente, impactando de forma criativa no processo de construção/desconstrução, transformação da obra da Natureza (a palavra tem a sua origem no latim ‘natura, futuro do verbo ‘nasci, de ‘nascere, ‘nascer; somado ao sufixo ‘urus, particípio futuro de ‘oritur, gerar, surgir, a força que gera), conceito que engloba nossa psique, passando pelo nosso corpo e pelo meio ambiente externo a nós! Somos então deuses e humanos. E podemos ser curadores de nós mesmos ou não?



Dra. Maura Selvaggi Soares, Médica e Analista em Formação no IJEP; atende na Barra da Tijuca RJ, mauraselva@gmail.com.

 

 

 

REFERÊNCIAS


BRANDÃO, Junito de Souza. Dioniso ou Baco: o deus do êxtase e do entusiasmo. In: Mitologia Grega, v. II, 4. ed.  Petrópolis: Vozes, 1991.

JUNG, Carl Gustav. O Eu. In: A AION, Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 1986.

_____ O Eu e o Inconsciente. 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.

LÓPEZ-PEDRAZA, Rafael. Dioniso no Exílio: sobre a repressão da emoção e do corpo. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2011.

MAGALDI FILHO, Waldemar. Psicossomática e Homeopatia. In: Homeopatia: uma visão junguiana (coord BRUNINI, M. de L. de P. G.), 1. ed. São Paulo: Typus, 2000.

PRÉTAT, Jane R. Envelhecer: os anos de declínio e a transformação da última fase da vida. São Paulo: Paulus, 1997.




https://www.gramatica.net.br/origem-das-palavras/etimologia-de-natureza/




 

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