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Luto e Política

 

"A vida é um processo energético, como qualquer outro, mas em princípio, todo processo energético é irreversível e, por isto, é orientado univocamente para um objetivo. E este objetivo é o estado de repouso."

C. G. Jung


"O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante" (Freud em "Luto e Melancolia", 1915).

Para que a reação do luto ocorra é preciso que tenha havido vínculo. Na "sociedade líquida", conceito desenvolvido por Zygmunt Bauman, os vínculos humanos não estão se estabelecendo em comunidade, mas em rede e os mesmos podem ser rompidos a qualquer momento. E nestes tempos, a correria, o Facebook, o WhatsApp, o Instagran e todas essas midias sociais criam uma atmosfera de que tudo passa, e com rapidez... a fluidez facilita àqueles que estão ao lado ou ao largo "da perda"... mas para aqueles que estão no "centro da perda", esses tempos são difíceis... o luto precisa de tempo... e a fluidez cria dificuldades para vivenciar as atitudes inerentes a essa reação: um profundo desânimo, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade...

Esse enfrentamento pode ocorrer de várias formas (Bowlby,1969):

a)      Como um choque que pode durar de horas a semanas, caracterizada por desespero, nó na garganta, perplexidade, sentido de irrealidade, negação e desconfiança;

b)      Ou pela busca da pessoa perdida através de inquietude física e de pensamentos permanentes sobre o falecido, que pode durar meses a anos; 

c)      A desorganização que revive continuamente as recordações e percebe que a presença do outro é apenas lembrança que dói, fazendo com que a vida não reencontre seu sentido;

d)      E a reorganização que se dá quando o enlutado começa a experimentar a sensação de reincorporarão à vida, o falecido agora é lembrado com um misto de alegria e tristeza e é, a partir daí que se internaliza a imagem da pessoa perdida.

Elisabeth Kubler-Ross (2008) estudou as pessoas que sabiam que iam morrer e enfrentavam um luto antecipado de si mesmo e, assim, sistematizou cinco estágios de adaptação para pacientes, cuidadores e familiares frente a uma doença terminal: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação, que não necessariamente seguem esta ordem e podem oscilar entre um e outro estágio, havendo variações de uma pessoa para outra.

Em termos junguianos, o luto é considerado uma experiência arquetípica que faz parte da vida, obviamente, uma experiência ancestral. Mas, em paralelo, há uma vivência pessoal, levando a um conjunto de reações em vários aspectos. Tanto o processo de luto por morte, quanto por outras perdas, tem como gatilho o rompimento de vínculos afetivos que repercutem no nível das relações concretas e no nível das fantasias e imagens interiores.

Como o processo de luto envolve também idéias, ideais, desejos e toda perda importante, a nação brasileira e a sociedade carioca, em especial, estão passando por um enlutamento intenso: luto do crescimento econômico, luto do emprego que tínhamos, do "Brasil que vai pra frente" e da "Cidade Maravilhosa"...

Quais seriam os objetivos da Política? Depende de cada situação e representam as prioridades do grupo (ou classe, ou segmento dominante): "nas convulsões sociais, será a unidade do Estado; em tempos de estabilidade interna e externa, será o bem-estar, a prosperidade; em tempos de opressão, a liberdade, direitos civis e políticos; em tempos de dependência, a independência nacional. A política não tem fins constantes ou um fim que compreenda a todos ou possa ser considerado verdadeiro". Segundo Bobbio (2002) "os fins da Política são tantos quantas são as metas que um grupo organizado se propõe, de acordo com os tempos e circunstâncias". Uma boa definição de Política pode ser a arte de comandar e gerenciar, fazendo uso de vários recursos para atender o anseio da população, a serviço do bem comum! Estamos enlutados por esta "idéia"!! Talvez porque a dita "sociedade líquida", com relacionamentos em rede, tenha apagado, esmaecido os "vínculos" dos indivíduos que formam a sociedade humana em que vivemos!

E este "ser coletivo" que somos, estamos vivenciando "todas as fases do luto" ao mesmo tempo, talvez exceto a fase de Negação - percebo que desta etapa já passamos... boa parte de nós com muita Raiva, a maioria Deprimida e Apática, e preocupa-me a fase da Barganha em ano de eleição, quando novos gestores serão escolhidos para a República, os Estados, Senado e Câmaras Estaduais e Federal.

            Melhor será que aceitemos este tempo de transição, vivenciando conscientemente a incerteza pela qual estamos passando. A necessidade das atitudes de enfrentamento e de Reorganização se fazem presente. Atitudes essas em que nós, os enlutados, experimentamos a responsabilidade que cada um tem com aquilo / com aqueles que estão próximos: as pessoas que convivem e trabalham conosco, os empregos que temos capacidade de gerar, as atitudes não corruptas que tomamos, os animais que convivem conosco, a natureza / ambiente em que moramos e trabalhamos, o lixo produzido, enfim, a responsabilidade pela capacidade educativa que cada um tem em seu micro ambiente de vida e morte!

Comecemos por nós!




Dra. Maura Selvaggi Soares, Médica, Especialista em Psicologia Junguiana e Analista em Formação no IJEP. Rio de Janeiro  mauraselva@gmail.com.

 

 

REFERÊNCIAS

BOBBIO, Norberto et al. Dicionário de Política. Brasília: UnB, 2002.

BOWLBY, John. Apego e Perda - A natureza do Vínculo (1969). São Paulo, Martins Fontes, v1, 2002.

FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia (1915). São Paulo: Cosac Naify, 2013.

JUNG, Carl Gustav. A Alma e a Morte. In: A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 1984.

KÜBLER-ROSS, Elisabeth. Sobre a Morte e o Morrer. São Paulo, Martins Fontes, 2008.




https://pt.wikipedia.org/wiki/Pol%C3%ADtica página consultada em 29/07/2018.


 

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