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A busca de sentido através da jornada do herói no século 21

Esse artigo pretende abordar a forte conexão existente entre os ritos de passagem e o acesso que eles possibilitam a conteúdos inconscientes. Nesse sentido, o principal fio condutor é a jornada do herói circunscrita no caminho de Santiago de Compostela. Trata-se de uma leitura através da estrutura do mito e seu respectivo arquétipo.

O percurso padrão da aventura mitológica do herói é uma representação da fórmula dos rituais de passagem: separação-iniciação-retorno - que podem ser considerados a unidade nuclear do monomito. A aventura do herói costuma seguir o padrão da unidade nuclear acima descrita: um afastamento do mundo, uma penetração em alguma fonte de poder e um retorno que enriquece a vida. De acordo com Joseph Campbell (1998, p. 36), "um herói vindo do mundo cotidiano se aventura numa região de prodígios sobrenaturais; ali encontra fabulosas forças e obtém uma vitória decisiva; o herói retorna de sua misteriosa aventura com o poder de trazer benefícios aos seus semelhantes". Os atos verdadeiramente criadores são representados como atos gerados por alguma espécie de morte para o mundo; e aquilo que acontece no intervalo durante o qual o herói deixa de existir - necessário para que ele volte renascido, grandioso e pleno de poder criador - também recebe da humanidade um relato unânime.

Segundo Phil Cousineau (1999, p. 96), os rituais marcam o tempo e organizam o espaço - duas maneiras de definir o sagrado. As viagens tornam-se sagradas devido à profundidade de suas contemplações. Como no mito, no sonho e na poesia, cada palavra é saturada de significado. O primeiro passo é ir mais devagar. O segundo é tratar tudo aquilo que lhe chega como parte de um tempo sagrado que envolve a sua peregrinação. Nesse momento palavras comuns são ressignificadas despertando uma nova consciência.

A busca por um novo plano de consciência também está ligada ao percurso do Caminho das Estrelas, também conhecido como Via Láctea, que é tido como o paralelo ao Caminho terrestre no céu noturno. Uma corrente de fiéis acredita que a Via Láctea é um reflexo celestial da rota terrestre tomada por peregrinos na Idade Média e que, posteriormente, se tornou o Caminho de Santiago. As estrelas da Via Láctea também podem ser interpretadas como um caminho das almas mortas; a luz produzida ajuda as almas perdidas a encontrar o caminho para o paraíso, que se encontra após o final da Terra (Cf. DAVIES, 1982, p. 221-22).

De acordo com Joseph Campbell, a primeira tarefa do herói consiste em retirar-se da cena mundana dos efeitos secundários e iniciar uma jornada pelas regiões causais da psique, onde residem efetivamente as dificuldades, para torná-las claras, erradicá-las em favor de si mesmo (isto é, combater os demônios infantis de sua cultura local) e penetrar no domínio da experiência e da assimilação, diretas e sem distorções, daquilo que Carl Gustav Jung denominou imagens arquetípicas. A segunda e solene tarefa é, por conseguinte, retornar ao seu meio de origem transfigurado e ensinar a lição de vida renovada que aprendeu. A constelação do arquétipo do herói se dá através da apropriação das lições aprendidas, do poder ativado pelas suas conquistas, do enfretamento de seus medos, enfim, pela transformação proporcionada ao longo da aventura.

A relação intrínseca entre o mito e o arquétipo, já observada por Jung, tem a ancestralidade muito bem pontuada pelo filósofo e antropólogo Gilbert Durant, pois, segundo ele, é uma ilusão superficial acreditar que existem mitos novos. O potencial genético do homem, no plano anatomo-fisiológico, assim como no plano psíquico, é constante desde a existência do homo sapiens sapiens. O jogo mitológico, com número de cartas limitadas, é incansavelmente redistribuído e, desde milênios, a espécie pôde esperar e sobreviver por causa deste devaneio contínuo no qual, por saturação intrínseca ou por eventos extrínsecos, se transmite a herança mítica (Cf. DURANT, 2004, p. 17).

O esvaziamento das ideologias no século XXI atrelado à inerente busca de sentido do homo sapiens nos auxilia a entender o crescimento espetacular do número de peregrinos registrados no Caminho de Santiago que, segundo The Confraternity of Saint James, no ano 2.000 recebeu 55.000 e em 2.017 chegou a 300.000 peregrinos. A ressignificação da peregrinação, para além dos símbolos religiosos, é um sinal de que a busca por sentido através da milenar jornada do herói é mais atual do que nunca, como já mostrara Jung, em 1912, em seu Metamorfose e símbolos da libido.

 

Referências:

CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1998.

COUSINEAU, Phil. A Arte da Peregrinação - Para o viajante em busca do que lhe é sagrado. Ágora, São Paulo, 1999.

DAVIES, H.; DAVIES M. H. Holy Days and Holydays: The Medieval Pilgrimage to Compostela. Londres: Associate University Press, 1982, p, 221-22 apud FREY, Nancy. Pilgrim Stories: On and Off the Road to Santiago, Journeys Along an Ancient Way in Moder Spain. Los Angeles: The Regents of the University of California, 1998.

DURAN, Gilbert. "O retorno do mito - Introdução à mitologia", Revista Famencos, Porto Alegre, n° 23, abril 2004.

JUNG, Carl Gustav. Símbolos da transformação. Petrópolis: Vozes, 1989.

https://www.csj.org.uk/the-present-day-pilgrimage/pilgrim-numbers/


Waldinei Guimarães

Mestre em Ciências da Religião pela PUC-SP e Especialista em Psicologia Junguiana pelo IJEP, Membro Analista em formação


 

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