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O Arquétipo do Puer-et- Senex e a Sociedade de Consumo

O termo arquétipo foi desenvolvido nos constructos teóricos de Carl Gustav Jung que utiliza este conceito para designar os padrões de comportamentos ou imagens primordiais impressas na psique coletiva. "Jung reivindica a filiação kantiana para sua concepção dos arquétipos do inconsciente coletivo, afirmando que eles estão para a imaginação simbólica assim como as categorias de Kant estão para o entendimento" (BARRETO 2006, p. 101). Na teoria de Jung, os arquétipos assumem as formas de vivências do homem que ficaram marcadas ao longo de todas as experiências da humanidade, se manifestando através dos sonhos, símbolos, assim como na literatura e nos filmes. Portanto os arquétipos formam a base de nossa mente (VON FRANZ, 2008).

O arquétipo é um conceito formal, uma estrutura, provido com ideias, temas e vivências.  A configuração do arquétipo é herdada, porém seu conteúdo é sempre determinado pela experiência pessoal do indivíduo. Vale a pena enfatizar que, em suas polaridades, todos os arquétipos apresentam, em si, um aspecto sadio e outro patológico (O.C. Vol. IX/1, 2014).

A relação Puer-Senex pode ser compreendida de diferentes formas. Jung não abordou amplamente este arquétipo, porém há em sua obra arquétipos que são associados a eles, tais como Velho Sábio (Senex) e a Criança-Divina e o Trickster (Puer). Outros autores, como James Hillman (1998) e Marie-Louise Von Franz (1992), o fizeram de maneira mais contundente, explorando o tema de diferentes pontos de vista. Von Franz estuda o Puer Aeternus a partir da relação com o complexo materno. Já Hillman o entende através de sua polaridade oposta, o Senex, considerando-os um só arquétipo: Puer-et-Senex.

Para Jung, o arquétipo da criança-divina tem uma unidade e pluralidade em suas manifestações, assim como todos os arquétipos, porém representa, principalmente, o futuro em potencial, mesmo que seja associado num primeiro momento com o passado.

O motivo da criança não representa algo que existiu no passado longínquo, mas também algo presente; não é somente um vestígio, mas um sistema que funciona ainda, destinado a compensar ou corrigir as unilateralidades ou extravagâncias inevitáveis da consciência. (O.C. Vol. IX/1, 2014, §276).

Para Jung a "criança" é o símbolo da síntese da personalidade ainda incompleta, remete a um estado psicológico do não conhecer, indiferenciado, inconsciente e do "vir a ser", desenvolvendo-se rumo à autonomia. Representa, portanto, a totalidade humana, "tudo o que é abandonado, exposto e ao mesmo tempo o divinamente poderoso, o começo insignificante e incerto e o fim triunfante" (Vol. IX/1, 2014, §300).

A nossa sociedade atual está influenciada e impregnada pela dinâmica e pelos valores do Puer: busca pelo sucesso fácil e rápido, pelo prazer e pelo gozo, a realização dos desejos, a hipervalorização da juventude e a tentativa quase que compulsiva em eternizá-la e pela diversão irresponsável; juntamente com a negação de tudo que se apresenta como oposição a esses valores.

Como afirma, Homem (2009), a nossa cultura busca fazer uma intersecção entre dois grandes campos: a infância e o consumo. A infância, obviamente vista como o alvo de toda projeção e idealização: potência total, inúmeras possibilidades, tudo o que a ilusão pode esperar; como um maravilhamento esvoaçante quase contínuo, período de graça, leveza e descoberta do mundo, felicidade plena; época do conforto e alegria feliz, da era da inocência inconsciente, cuidada e irresponsável.

Basta observarmos os consultórios de colegas que atendem crianças, ou mesmo nos lembrar de nossas sessões com nossos analistas, para nos darmos conta que a infância, como qualquer outra fase da vida, tem suas delícias e suas dores. Essa idealização parece ser uma tentativa de se lidar com a realidade do mundo adulto, muitas vezes encarada no polo oposto, o puro Senex: maçante, rotineira, desesperançada, sem sabor e sem brilho.

Esta intersecção entre infância idealizada e consumo acaba por produzir uma "adolescentização" dos sujeitos, que ficam estagnados e presos ao conforto, ao cuidado asfixiante, sem coragem de cortar o cordão umbilical. Impedidos então, de realizar os rituais de passagem para a vida adulta, responsabilizando-se pela vida e por si mesmos. Tendo coragem de ser livres, fazer escolhas, suportar e lidar com a frustrações, tão fundamentais para a construção do indivíduo, do seu sentido de vida e do seu sentido no mundo.

Não é fácil amadurecer. Suportar a liberdade. Ser responsável por si mesmo. Conviver com a tarefa solitária de ser "indivíduo", de ser autor da própria história e não mais poder colocar a culpa em ninguém.

Sem o sacrifício e o sofrimento necessário, o sujeito fica preso à satisfação dos impulsos e desejos do ego, mergulhado na ilusão do paraíso da infância, atado à Grande Mãe e sem condições de integrar o pai, ficando psiquicamente paralisado. É necessário que conscientemente seja capaz de realizar tudo que compreenda sua existência, sejam suas necessidades, tarefas, deveres e responsabilidades. "[...] sacrifício só acontece numa total devoção à vida, quando toda a libido retida em laços familiares precisa sair do círculo estreito e ser levada para o grande mundo" (O.C. Vol. V, 2013 § 644).

             A tarefa é seguir por si, suas próprias pernas e responsabilidade, sem nem o fantasma da perda do maravilhoso nem a conformação cínica com a dureza de uma vida adulta sub-fantasiada, ou hiper-desencantada - e no também difícil debate com o outro, seu imaginário e seu poder. Para o somente-humano parece, no entanto, não haver saída muito diferente (HOMEM, 2009 p.10).

Observamos que a sociedade de consumo não oportuniza esse processo e pelo contrário, tem valores que vão, na contramão deste sentido. Nega e até inviabiliza que se possa lidar com temas profundamente humanos, como o tempo da alma, a própria alma, os processos, o sofrimento, o sacrifício e a morte. Sem isso não é possível o "processo de individuação", o caminho para o sujeito tornar-se ele mesmo, único, singular, ter realmente uma existência que tenha sentido para si e para os outros. Sem o indivíduo, único e no caminho da individuação, não é possível pensarmos em uma sociedade mais justa, mais fraterna, um mundo onde seja melhor poder viver a própria vida.

O espaço analítico pode ser um lugar e um momento onde os indivíduos podem promover um maior diálogo entre as polaridades Puer e Senex. Onde Senex como representante do mundo do pai, pode se aproximar do Puer, dando força e instrumentos para que ele possa sair do conforto asfixiante do complexo materno negativo e conduzi-lo para o mundo do adulto. Sem negar Puer, mas de mãos dadas rumo ao processo de individuação.

Para Hillman (1998), o problema está no pouco diálogo entre  Puer e Senex. A ausência ou escassez de relacionamento entre eles gera um sujeito e/ou uma sociedade identificada com apenas um dos polos. Como o Senex e seus valores não são contemplados e não servem ao "deus consumo", a polarização ocorre no Puer, exacerbando suas características infantis, rebeldes e irresponsáveis.

Quando Senex se integra ao Puer, faz surgir uma nova dinâmica, capaz de enfrentar os desafios que a vida apresenta, com criatividade e vigor. Gerando uma postura de reverência à vida e a seus processos. Abrindo-se a ela deixando-se por ela atravessar, e assim construir seu caminho e sua história. Puer e Senex juntos. O plantio e a colheita. Semeando, cuidando e colhendo. Possibilitando que a vida tenha um sentido maior, que ela seja sagrada.

Desta forma, parece possível pensar em uma clínica do Puer. É necessário levar o Puer à clínica, não para ser curado, mas para que ele possa se encontrar com Senex, travar um diálogo, dar as mãos e juntos avançarem no Processo de Individuação. Assim, será possível pensar e sonhar uma sociedade mais justa, mais humana e mais religiosa. "Re-ligada" com seu sentido mais sagrado e mais transcendente e assim mais encarnada na humanidade.


Adriano Luiz Pardo.

Psicólogo. Especialista em Psicoterapia Junguinana pelo IJEP e Analista em formação.

Avenida Afonso Pena, 4.496.

Campo Grande - MS

Contato: 67 99980-1079

adrianopardo@uol.com.br


EFERÊNCIAS


BARRETO, Marco Heleno. Símbolo e sabedoria prática. Carl Gustav Jung e o mal-estar da modernidade. 2006. 252f Tese (Doutorado em Filosofia) Universidade Federal de Minas Gerais, Departamento de Filosofia.

 

BERNARDI, Carlos. Senex-et-puer: esboço da psicologia de um arquétipo. In: MONTEIRO, Dulcinéia Da Mata Ribeiro (Org.). Puer-Senex: dinâmicas relacionais. 2ª edição, Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.


FRANZ, Marie-Louise Von. O processo de individuação. In: Jung, Carl Gustav (Org.). O homem e seus símbolos,2ªedição, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.


FRANZ, Marie-Louise von. Puer Aeternus:a luta do adulto contra o paraíso da  infância. São Paulo: Paulus, 1992.


HILLMAN, James. O Livro do Puer: ensaios sobre o arquétipo do Puer Aeternus. São Paulo: Paulus, 1998.


HOMEM, Maria Lúcia. A Criança Eterna. Revista FACOM Nº21, 1º Semestre, 2009.


HOPCKE, Robert H. Guia para a obra completa de Jung. Petrópolis: Vozes. 2012 (3ª Ed.).


JUNG, Carl G. Símbolos da transformação: análise dos prelúdios de uma esquizofrenia, Vol. V,  9ª edição, Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.


___________. Os arquétipos e o inconsciente coletivo, Vol. IX-1, 11ª edição, Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.


SAMUELS, Andrew; SHORTER, Bani; PLAUT, Fred. Dicionário crítico de análise junguiana. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1988.


ZOJA, Luigi. Nascer não basta. São Paulo: Axis Mundi, 1992.


WERRES, Joyce L. A contemporaneidade na perspectiva puer-Senex. In: MONTEIRO, Dulcinéia Da Mata Ribeiro (Org.). Puer-Senex: dinâmicas relacionais. 2ª edição, Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.


WERRES, Joyce L. O complexo materno e  personalidade puer. 2010. 29 f. Monografia (Título Paulo: Cultrix. de Analista Junguiano) Instituto Junguiano do RS, Porto Alegre, 2010. 

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