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A ALQUIMIA COMO CAMINHO DE CURA

Civilizações antigas, em diferentes partes do mundo, reuniam-se para buscar o conhecimento do Universo sagrado, visto enquanto céu, energia, seres espirituais e suas relações com o ser humano. Os alquimistas estudavam como extrair da matéria mais simples o ouro, buscando a riqueza do metal, do corpo e da consciência.  Mas isto foi se perdendo ao longo do tempo a medida que as religiões foram centralizando e formatando a relação do indivíduo com Deus e idealizando a convivência do homem com o seu semelhante,  deixando uma grande lacuna: a interação do ser humano com o Universo e a aceitação da totalidade.  Este ideal quase imaculado proposto pelas  religiões induz o ser humano a negar suas sombras e desenvolver o padrão de controle ao invés de estimulá-lo a aceitação da Totalidade em si, pressuposto do processo da individuação.  Esse movimento ao longo dos séculos desenvolveu uma sociedade adoentada baseada numa visão reducionista e medíocre da vida. O resultado é a alienação da multidimensionalidade da existência humana, o distanciamento da essência criadora que nos habita e a não utilização desse poder criador.   Resgatar  a mentalidade alquímica é compreender e harmonizar a forma como nos relacionamos com o Todo que habitamos e ao mesmo tempo nos habita, como sugere Jung ao dizer que a alquimia trata do germe da unidade que está oculto no caos de Tiamat e que corresponde à contrapartida da unidade divina (Psicologia e Alquimia, 31).   Enquanto o indivíduo não se libertar da necessidade de controle de si, imposta pelo fantasma religioso predominante no inconsciente coletivo, seguirá na prática do julgamento e conseqüente enquadramento de si e do outro, repetindo os dramas não resolvidos pelas posturas unilateralizadas, contribuindo para manutenção de uma sociedade perdida no ideal de poder  produzindo e perpetuando relações desreguladas pelos egos, alguns infantilizados e outros inflados, de seus cidadãos.  

"... o "opus" cristão é um "operari"executado pelo homem necessitado de redenção em honra de um Deus redentor, ao passo que o "opus" alquímico" é o esforço do homem redentor no sentido de redimir a alma divina do mundo adormecida na matéria, à espera dessa redenção."

Jung, Psicologia e Alquimia p.497

Resgatar a mentalidade alquímica é lembrar que para a transformação ocorrer em qualquer matéria, faz-se necessário que, primeiramente, ela retorne ao seu estado primordial, à sua essência.  No laboratório, descobriu-se que todo metal era composto de diferentes quantidades de mercúrio e enxofre, e após retornar ao estágio primário, alterava-se as proporções dessas substâncias para transformar o metal menos nobre em ouro. No campo psicológico, mercúrio representa o princípio feminino e o enxofre o masculino, que se separam na etapa inicial e depois se reencontram purificados, prontos para dar a luz à pedra filosofal.  Aqui nos deparamos com a possibilidade de olhar com atenção para anima / animus e movimentar o ego na direção do Self, para que o chumbo da personalidade se transforme no ouro do espírito. O ponto de partida da Opus é encontrar a matéria prima, o que na perspectiva psicológica corresponde à identificação exata do sintoma ou o problema a ser trabalhado, o que exige um mergulho  nas camadas mais obscuras da personalidade, na busca daquilo que o consciente tanto despreza ou ignora mas que dispara efeitos tão indesejados na vida. Se faz parte da natureza humana a atuação da luz e da sombra nos conteúdos psíquicos, não parece lógico e nem agregador  permanecer  na fantasia de que alguém  não sofrerá tais efeitos. Então por que permanecer na cultura do julgamento que tanto dificulta a aceitação de si e do outro, geradora de tantos conflitos? 

Os alquimistas uniam  o laboratório ao oratório, ou seja, buscavam sua conexão com a natureza e com divino enquanto faziam suas experimentações. Era sabido que jamais a iluminação aconteceria se não houvesse a passagem pelo inferno da nigredo, onde as sombras  são confrontadas e transformadas em cinzas. No estágio seguinte a personalidade passa por sucessivas purificações preparando-se para o religare na rubedo, quando o alquimista torna-se a pedra filosofal ao descobrir que a Coniuction, ultima etapa da opus alquímica, tem como causa e efeito o amor. É este o ingrediente transmutador e libertador das dores do passado, transformando o velho drama em aprendizado.  Esse amor requer auto aceitação do que se é, de como se está, para que se encontre os conteúdos ameaçadores,  reputados como indignos ou feios, pois só neste contato existe a possibilidade de transmutação.  Esse amor é livre, isento de dogmas e preconceitos, é transcendente e disponível em todos nós. Que ele possa conduzir o oratório à labuta diária de todos nós na nobre tarefa da individuação.

Alessandra Melo, Psicoterapeuta, Analista Junguiana em formação pelo IJEP no Rio de Janeiro

Bibliografia:

  • JUNG, Carl Gustav . Psicologia e Alquimia 4.ed Petrópolis: Vozes, 1991
  • MELO, Alessandra - Monografia: A Teoria Junguiana na Contemporaneidade - O processo alquímico como modelo de expansão do indivíduo e de suas relações pessoais


 

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