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Homossexualidade - Um Elemento de Subjetividade


Ele perdeu a voz, tão grande era o seu sofrimento. Procurava todos os remédios, usava todos os recursos de sua arte; derramava néctar sobre a ferida inteira, cobria-a de ambrosia. Mas todas as drogas são impotentes contra o destino. (Bion apud Salles e Melo, 2011, p.58 e 59).                 


            Apolo apaixona-se por Jacinto, por ser um adolescente de rara beleza e, um dia em que os dois se divertiam brincando de arremessar discos, desviado pelo ciúme de Zéfiro - o vento, um destes discos atinge Jacinto na cabeça, matando-o instantaneamente. Apolo, desesperado pela perda do amado, transforma-o numa flor e a chama de Jacinto, trazendo em suas pétalas ora o lamento de Apolo (ai), ora a inicial do nome de seu amado (J), interligando-os, assim, eternamente. Há outras variações do mito grego que dizem que o responsável pela tragédia foi Bóreas, rival de Apolo em seus amores com Jacinto.

            Durante um grande período da história, a homossexualidade não existia, pois não era assim nomeada. Na Grécia antiga, pessoas do mesmo sexo se relacionavam, mas sem serem tidas como homossexuais. O desejo sexual quando se apresentava no humano, era desejo de Afrodite. Para que a preferência sexual seja definida como homossexual ou heterossexual "eu tenho que dizer que o desejo é meu" e, como na Grécia não tinha "desejo meu", Afrodite atravessava os mortais, as aves, a lua, o sol, os rios, o que quer que fosse e, se uma coisa tinha desejo por outra, era Afrodite se manifestando e cabia aos mortais reconhecê-la, mas eles tinham que se saber mortais, o que significa: limitados. Os deuses, por sua vez, não tinham limites, eram infinitos, mas os mortais eram limitados, então, o mortal, embora se soubesse conduzido por um deus, no caso, Afrodite, não podia realizar Afrodite em qualquer momento, em qualquer contexto, em qualquer situação, tinha hora, lugar e precisava viver na medida do mortal e, se assim não fosse, ele era escravo de Afrodite, era uma hybris  (em grego ??ρις, "hýbris" - na mitologia grega, era a daemon que personifica a insolência, violência, orgulho imprudente, arrogância e comportamentos ultrajantes), uma desmedida. Por esta razão, não havia homossexualidade, mas Afrodite atuando e se manifestando (SALVADOR, 2018).

As relações eróticas entre pessoas do mesmo sexo, na Grécia antiga, tinham a ver com ensinar uns aos outros, onde havia um cidadão grego ensinando outro cidadão grego, e daí a relação entre um cidadão mais velho e um mais novo. Era necessário aprender para não se ultrapassar a medida, acompanhar o contexto e saber o momento certo para não ser escravo da desmedida, por isso, aquele que já tinha o conhecimento, ensinava ao que precisava aprender.

Nos mitos gregos, frequentemente, encontramos união entre seres do mesmo sexo, como Zeus e Ganimedes, Poseidon e Pélope, Hércules e Hilas, Apolo e Jacinto, Apolo e Ciparisso, Apolo e o cantor Tamiris, dentre outros. Relacionamentos entre mulheres, encontraremos mais nos poemas de Safo, poetisa grega que nasceu na ilha de Lesbos e que tinha em suas poesias (escritas para serem cantadas ao som da lira), conteúdos emocionais dirigidos a outras mulheres, como "Ode a Afrodite".

Aristófanes, em O Banquete de Platão, conta que no início havia três raças humanas, sendo que, a dos andróginos, era composta por seres bissexuados. Esses, muito poderosos, tentaram guerrear contra os deuses. Zeus, para puni-los, mandou Apolo dividi-los em partes. Os que se dividiram entre uma metade masculina e outra feminina, passaram a buscar a parte oposta para se unirem novamente. Contudo, as mulheres provenientes da separação de uma parte feminina, passaram a buscar, não homens, mas sua outra parte, outras mulheres. O mesmo aconteceu com homens que se separaram de sua parte masculina, passaram a buscar incessantemente por outros homens, a fim de se completarem (SALLES E MELO, 2011).

Segundo SALLES E MELO, 2011, "A obra de Jung está fundamentada num imaginário arquetípico, no qual o masculino, o feminino e o andrógino se contrapõem. E quase sugere que a "condição sexual" do sujeito seria o resultado de infinitas possibilidades e facetas psíquicas".

O termo homossexualismo, em 1869, foi criado por Karl Maria Kertbeny, em escritos anônimos contra as leis da Prussia que previam leis severas as práticas de "sodomia". Historicamente, o termo homossexual aparece carregado de um diagnóstico psiquiátrico de perversão. Em 1997, Krafft-Ebing, inclui o homossexualismo na medicina entre os desvios sexuais, em seu livro Psychopathia Sexualis. Em 1973 a Associação Psiquiátrica Americana retira a homossexualidade da lista de distúrbios mentais. Em 1975 a Associação Brasileira de Psiquiatria e o Conselho Federal de Psiquiatria também o fazem e, em 1990, a Organização Mundial de Saúde procede da mesma forma. O CID 10, por sua vez, coloca no lugar da doença mental a orientação sexual egodistônica e o DSM 5, agora mais recente, substitui por disforia de gênero. Em 1992, o psiquiatra Jurandir Freire Costa, sugere o termo homoerótico, com o objetivo de despatologizar a homossexualidade.

 A tradição judaico-cristã, desde seus primórdios, teve forte contribuição no processo de construção ideológica da homossexualidade, uma vez que, na busca de discriminar e classificar as pessoas e as coisas do mundo, dividiu os seres humanos entre heterossexuais e homossexuais, apoiando-se no pecado como forma de explicar a homossexualidade, sem espaço para o paradoxo e nem mesmo para a dúvida, em que Deus, nas passagens abaixo supostamente condena a homossexualidade (BÍBLIA ON-LINE):

Coríntios

"Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus?" 1 Coríntios 6:9

"Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus". 1 Coríntios 6:10

"Fugi da fornicação. Todo o pecado que o homem comete é fora do corpo; mas o que fornica peca contra o seu próprio corpo". 1 Coríntios 6:18

 

Deuteronômio

"Não haverá traje de homem na mulher, e nem vestirá o homem roupa de mulher; porque, qualquer que faz isto, abominação é ao Senhor teu Deus". Deuteronômio 22:5

"Não haverá prostituta dentre as filhas de Israel; nem haverá sodomita dentre os filhos de Israel". Deuteronômio 23:17

Não trarás o salário da prostituta nem preço de um sodomita à casa do Senhor teu Deus por qualquer voto; porque ambos são igualmente abominação ao Senhor teu Deus". Deuteronômio 23:18


Levítico

"Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é". Levítico 18:22

"Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles". Levítico 20:13


Romanos

"E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro". 1 Romanos 1:27


Timóteo

"Para os devassos, para os sodomitas, para os roubadores de homens, para os mentirosos, para os perjuros, e para o que for contrário à sã doutrina". 1 Timóteo 1:10


Observando essas citações e tomando-as em sua literalidade, há um repúdio bíblico para com os homossexuais e suas práticas homoafetivas, uma vez que estão em desencontro ao que diz a Bíblia Sagrada e, portanto, contra Deus, sendo assim, os homossexuais são vistos como pecadores que estão condenados a não alcançarem o reino dos céus.

Todavia, quando observamos que, desde a Antiguidade (na Grécia) já existiam relacionamentos homoeróticos, parece-nos inadequado julgar a homossexualidade segundo padrões morais da igreja e da burguesia dos séculos XIX e XX.

Para Freud, a libido é energia sexual e os objetos são investidos de libido e, para Jung, a libido não é exclusividade energia sexual, pode aparecer com conteúdo sexual, mas não tem nenhum conteúdo especifico, é energia psíquica, aponta a intensidade com que determinados conteúdos podem ou não aparecer na psique e, portanto, qualquer conteúdo pode aparecer com mais ou menos libido. Temática esta de forte discordância entre Freud e Jung.

Para Jung, a energia psíquica é indiferenciada, portanto, faz pouco sentido aplicá-la a padrões de discriminação à dinâmica do inconsciente e, menos sentido ainda se faz tomar o conceito de individuação sem a liberdade de escolha do indivíduo, classificando assim as pessoas como homossexuais ou heterossexuais e, punindo-as, por suas preferências sexuais. SALLES E MELO, 2011, apontam que:

Uma vez que as relações e fantasias eróticas entre pessoas do mesmo sexo ocorrem e, sempre ocorreram, em todas as épocas, o que verdadeiramente importa é como um indivíduo se forma e se torna o ser único e diferenciado que se é sem que venha a sucumbir aos preceitos ditados pelas normas e convenções sociais. Pois, o que chamamos de processo de individuação, significa "ser aquilo que se é", sem quaisquer adjetivos de conotação positiva ou negativa, independentemente de qualquer orientação sexual.


            Costa, em seu livro Inocência e Vício (1992, p. 22 e 23), considera que:

A particularidade do homoerotismo em nossa cultura não se deve ao fato de uma experiência subjetiva moralmente desaprovada pelo ideal sexual da maioria. Dizer isto é dizer que numa cultura como a nossa, voltada para a ideia de realização afetiva e sexual, privar certos sujeitos dessa realização é extremamente problemático. Tanto quanto aos mesmos sujeitos foram ensinados a desejar esse tipo de satisfação. (...) o homossexual é uma forma de subjetividade como qualquer outra subjetividade pode ser historicamente circunscrita em seu modo de expressão e reconhecimento. (...). Durante muito tempo, por exemplo, acreditou-se que certos homens eram ‘por natureza escravos, outros, ‘por destino espiritual, hereges e, certas mulheres primeiro por serem mulheres, depois por apresentarem condutas que as afastavam da média, feiticeiras.


É contraditório e faz enlouquecer e adoecer o outro, ouvir que todos têm direito a felicidade e realização pessoal, negando, em seguida essa crença a golpes de violência moral.

            Em suma, podemos olhar para homossexualidade, como sendo um elemento de subjetividade, entendida como algo que diz respeito ao indivíduo, ao seu psiquismo, sua formação, sua singularidade e que faz parte de seu processo de individuação.


Andreia Araujo - Psicóloga Clínica, Analista Junguiana em Formação, Especialista em Psicologia Junguiana e Psicossomática e Especializanda em Arteterapia pelo IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa.

Contatos: 11 99730-8737 e deh.faraujo@gmail.com. Vila Mariana.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BÍBLIA ONLINE. Disponível em: <https://www.bibliaonline.com.br/>. Acesso em: 05 de março de 2016.

COSTA, Jurandir Freire. A Inocência e o Vício - Estudos sobre o Homoerotismo. 3. ed. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1992.

HOPCKE, Robert. Jung, Junguianos e a Homossexualidade. 1. ed. São Paulo: Siciliano, 1993.

JUNG, Carl Gustav. O Desenvolvimento da Personalidade. 14 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

________________. A Natureza da Psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

PLATÃO. O Banquete. Petrópolis: Vozes, 2017.

SALLES, Carlos Alberto Corrêa; MELO, Jussara Maria de Fátima César e. Estudos sobre a Homossexualidade. Debates Junguianos. 1. ed. São Paulo: Vetor, 2011.

SALVADOR, Ajax Peres. Nota de Aula sobre "Transtornos da Sexualidade e Sexuais, Físicos e Psíquicos", no curso de Psicossomática, da FACIS - Faculdade de Ciências da Saúde, 2018.

ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah. Ao Encontro da Sombra. O Potencial Oculto do Lado Escuro da Natureza Humana. 1. Ed. São Paulo: Cultrix, 1994.


 

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