(11) 94066-0279   (11) 5535-4695   

Newsletter

Receba as nossas notícias e novidades em seu e-mail:

Parceiros

Do lado de fora da clínica: crianças sem limites, mães sobrecarregadas

 

Quem já não se deparou com crianças ou pré-adolescentes mimados, sem noção alguma de limites, que se comportam como pequenos ogros em situações das mais diversas, seja em público, seja em suas próprias casas?

Talvez a primeira geração dessas crianças das quais se diz serem "completamente sem limites" seja essa que hoje chega aos 21 anos e que tem sido chamada de "nem-nem", derivação de "nem estuda, nem trabalha". Ou seja, uma geração de crianças que cresceram sem limites e que chegam no começo da vida adulta igualmente sem a menor noção do que esperar do mundo ou, o que seria mais desejável, de como assumir um lugar de sentido num mundo cada vez mais carente de pessoas conscientes e participativas.

O fenômeno é sim social, mas chega aos nossos consultórios sob a forma de histórias de sofrimento individuais, seja por meio das crianças e adolescentes que são encaminhadas completamente desorganizadas, seja por meio de mães e pais em desespero, sem saberem o que fazer quando o quadro atinge um ponto insustentável.

De quem, afinal é o papel de educar? Todos se apressariam a responder que é dos pais, da família, que a escola ensina, não educa, e etc. e tal. O que de fato vemos é um jogo desesperado de empurra-empurra das responsabilidades de educar uma criança, para onde quer que olhemos.

Países que possuem programas sociais mais efetivos, que consideram e acolhem a criança, protegendo-a do bombardeio do mercado e da mídia, consideram a impossibilidade de que apenas o núcleo básico familiar - pai e mãe, talvez irmãos - seja suficiente para oferecer à criança de hoje o cuidado e orientação de que ela precisa.

Sim, porque ela precisa disso 24 horas ao dia, todos os dias de todos os meses, de todos os anos, até que tenha deixado de ser uma criança.

Aqui abro um parênteses e aviso que vou falar da família de classe média, porque sobre a situação das classes mais desfavorecidas precisaríamos de todo um ensaio psicossocial bem específico, tamanha a tragédia que temos no Brasil.

Sabemos que a grande família, como tínhamos até algumas décadas atrás, não existe mais. Aquela família que morava em casas geminadas, ou em vilas - com tias, avós, primos e primas mais velhos, e nas quais a criança encontrava um grande número de cuidadores indiretos -, não existe mais, salvo raras exceções. Hoje, o que normalmente encontramos é o núcleo familiar constituído pelo casal, um ou dois filhos, ou então, apenas a mãe com os filhos, mãe e novo marido com os filhos, e, em número bem menor de casos, pai com os filhos, ou pai e nova esposa com os filhos do primeiro casamento de ambos. Há ainda os casais homossexuais, arranjos específicos para os quais esta reflexão não se aplica por tratar justamente da situação atual da figura da mulher-mãe, no contexto de um casamento convencional.

O que temos de novo nas últimas 3 décadas é que a criança hoje é basicamente uma responsabilidade dos pais, e dos profissionais que eles paguem para ajuda-los (SCHIAVO: 2018), mas, que fique claro, jamais educarão a criança porque educar dá um trabalho danado e nenhum funcionário está disposto a passar por isso, sobretudo sem o apoio moral do vínculo familiar.

Temos ainda de considerar que em um país em que os homens ganham 30% mais do que as mulheres e têm 50% mais chances de empregos quando disputam vagas com mulheres com as mesmas aptidões, normalmente os homens ficam moralmente encarregados da maior parte das responsabilidades econômicas da família. Disse moralmente porque nem sempre isso é exatamente assim, já que o salário de maior parte das mulheres que trabalham fora vai integralmente para a família, para os filhos, para a manutenção da casa, mesmo que alguns homens gostem de dizer que o que elas recebem é só para elas. Os índices dos censos sociais mostram que não é bem assim, que não é nada assim.

Sim, também temos de levar em consideração que as mulheres, ao se tornarem mães, sobretudo nos primeiros anos de vida da criança, são muito mais solicitadas do que os pais. Elas amamentam, elas controlam as medicações em cada resfriado, elas controlam a alimentação da criança, as papinhas, o uniforme, o material escolar, as lições de casa e os trabalhos, a compra do presente da festa do amiguinho... a lista é interminável e exaustiva. Hoje fala-se muito desse tipo de hipertarefação, geradora de um estresse tremendo, e invisível aos familiares.

E essas mulheres que fazem tudo isso, via de regra, também possuem profissões, carreiras, pelas quais são cobradas tanto em performance, como em sucesso.

Recentes pesquisas realizadas sobre o perfil de sucesso da mulher contemporânea (COGHE: 2014; NICOLOSI: 2018) mostrou que a expectativa do brasileiro é por uma mulher que trabalhe fora, tenha sucesso profissional, autonomia econômica, que vá à academia, esteja no seu peso ideal, que "se cuide" (cremes, cabeleireiro, manicure, roupas, etc. e tal). E é preciso ainda ser feminina: cozinhar bem, ser boa mãe, atenciosa com marido e filhos. Também tem de ser zen: meditar ou fazer yoga, ou dança, e, se possível, cultivar uma pequena horta no fundo do quintal ou nas jardineiras suspensas do apartamento decorado com todo o bom gosto e atenção de uma mulher que está "de bem com a vida". Terá ainda que ser "boa de cama". Tirará fotos sorrindo, magra e feliz, com seu pet no colo, segurando uma xícara de chá zero caloria, enquanto seus filhos brincam calmos e limpos com blocos de madeira ao seu lado, entretidos e autossuficientes.

Essa é a expectativa social e midiática sobre como a mulher contemporânea deve ser, o imaginário que recai cotidianamente sobre as mulheres e que funciona como uma cobrança muda cotidiana, lembrando-a de que, possivelmente, ela é um fracasso por não conseguir nem um décimo disso tudo.

Voltemos ao nosso ponto: essa mulher tem de ser uma ótima educadora dos seus filhos, impor limites claros a eles, que - romanticamente - aceitarão depois de algum tempo os limites que ela impõe porque ela foi "firme e clara", sem se contradizer.

Oh, céus, quem nunca se contradiz? Como não ter a sombra pulando na frente sem que se perceba quando lidamos com afetos viscerais como os filhos?

Esse é todo o contexto que me vem à mente a cada vez que vejo uma mãe entrar no consultório, já cheia de antidepressivos, com a clara expressão de derrota estampada na alma.

Não é incomum vermos chegar em nossos consultórios mulheres destruídas pela maternidade que tanto desejaram, às vezes acompanhadas de crianças perdidas e completamente sem limites, que voltam sua hostilidade contra elas, como um pedido legítimo e desesperado de limites, mas um pedido cruel e doloroso, para ambos.

Crianças sem limites quase sempre têm mães que sofrem padrões de abuso, esse é o ponto. Esse abuso, que começa pela sociedade, considerando a longa história de abuso e injustiça com as mulheres no mundo, continua nos padrões familiares.

Sim, o que vejo é que por trás de crianças mimadas, que não têm limites, há mães presas a padrões de abuso pela família, pelo marido, por todo mundo... por isso não adianta apenas orientar a mãe para que ela ponha limites nos filhos, é preciso também apontar caminhos para que ela lide com o próprio padrão de abuso, para que ela comece pondo limites aos seus próprios abusadores. Se isso não for feito, nossa intervenção, responsabilizando-a, tem grandes chances de apenas gerar mais sofrimento, sem resultado.

É certo que precisamos fazer com que ela compreenda que é preciso que ela lide com o padrão de abuso a que se submete, e que é necessário fazer isso por si mesma e pelos seus filhos. Que é sua responsabilidade lidar com sua própria sombra, fazendo isso primeiramente para sua própria integridade, e depois para não perpetuar a história de dor e sofrimento familiar.

Observo muitas vezes alguns colegas que falam das mães de seus pacientes crianças e adolescentes com um certo tom crítico, como se a ausência de limites da criança, a educação falha, a desatenção da mãe em detalhes importantes fosse sempre porque as mães são relapsas, relaxadas, fugindo de suas responsabilidades maternas.

É claro que isso pode ser real, não existe regra geral para pessoas em análise, mas considero que uma certa leitura psicanalítica ajudou também a forjar esse lugar monstruoso da mãe no imaginário da clínica psicológica: a mãe perversa, a bruxa má do conto de fadas.

Recentemente, o filme Malévola nos fez pensar sobre a dor que se esconde sob as asas arrancadas de uma fada - algo que doeu tanto até que ela virasse bruxa. Por isso, nós, terapeutas, poderíamos investigar primeiramente se esta mãe não está exposta a um padrão de abuso, antes de querermos imputar a ela toda uma culpa pelos destemperos do filho.

Sejamos claros, sim, é dos pais o papel imediato e a responsabilidade desses limites. Mas não deveria ser apenas dos pais, deveria ser de toda a sociedade que chama para a si o cuidado com o futuro que uma e qualquer criança representa. Deveríamos nos espantar pela absoluta falta de solidariedade dos vizinhos, da família, dos conhecidos em geral, que nunca se oferecem para colaborar com os cuidados de uma criança que não seja "sua".

Nossa sociedade é egocêntrica e hostil e diz assim: "quem tem filhos, que os crie". Ouço algumas mulheres que foram massacradas pela própria maternidade dizerem isso a outras, jovens mães, com um grande sadismo e satisfação na voz. O oprimido, que não soube se rebelar, reproduz a opressão quando tem chance, já dizia Paulo Freire que, quando a educação falha, e poderíamos dizer que se aplica também ao autoconhecimento, "o sonho do oprimido é tornar-se opressor".

Tudo que uma mulher, mãe, não precisa receber quando adentra nosso consultório é mais crueldade. Com isso não estou sugerindo que deva receber piedade, que é antiterapêutica, como sabemos. Não pretendo colocar as mães no lugar de vítimas passivas, mas também não acho justo querer apagar a História, o contexto social e o cotidiano muitas vezes massacrante das pessoas que entram em nossos consultórios. James Hillman muitas vezes falou sobre a importância de levar a "poltrona para as ruas", ou ainda, "a alma do mundo para o encontro analítico".

É preciso olhar para essas mulheres, para essas mães, para as mães das crianças que chegam sofrendo em nossos consultórios, porque normalmente esse sofrimento foi herdado.

Se não pudermos ajudar as mães a lidarem com o sofrimento que vivem no mundo atual, não conseguiremos ajudar os filhos dessas mães, ou, ao menos, não conseguiremos ajuda-los sem que ao final eles tenham aprendido apenas a abandonar esse feminino ferido. Ficarão aparentemente melhores, superarão as desordens herdadas e seguirão virando as costas para o feminino, esse eterno portador de todo o mal.

E ao crescerem, quando homens, farão isso às custas de sua relação com a própria anima. Quando mulheres, crescerão para caminhar desavisadas para a própria tragédia que as aguarda quando elas mesma, sozinhas e hiperdemandadas, procurarem ajuda por sentirem que falharam como mãe, assim como sua mãe.

É fácil amar ideias, modelos, padrões; difícil é amar a sombra do outro, desfigurado pela dor do mundo.


Dra. Malena Segura Contrera - IJEP

Membro Analista em formação e professora do IJEP


(Esta reflexão foi inspirada nas discussões com o grupo de supervisão, a quem agradeço por este e outros insights. Obrigada, Simone Magaldi, Ingrid Hermann, Elizabete Gonzales, Sonia dos Santos, Carolina Oscalis, Edileide Matos, Fábio de Sousa e Viviane Salgado)



Referências:

GUGGENBUHL-CRAIG, A. O Abuso do Poder na Psicoterapia e na Medicina, Serviço Social, Sacerdócio e Magistério. São Paulo: Paulus, 2004.

HILLMAN, J. Cem anos de psicoterapia... e o mundo está cada vez pior. São Paulo: Summus Ed., 1995.

Dissertações e teses:

Do corpo real ao corpo idealizado: a transformação do corpo em imagem. Autora: Karolina Coghe, 2014. Link: https://www.unip.br/presencial/ensino/pos_graduacao/strictosensu/comunicacao/download/comunic_karolinacoghe.pdf


Naturalidade sem Natureza - A construção da mulher como simulacro na Revista Plástica e Beleza. Autora: Regina Nicolósi. No prelo, 2018. Link:  https://www.unip.br/presencial/ensino/pos_graduacao/strictosensu/comunicacao/dissertacoes.aspx

A hiperexposição das crianças às imagens técnicas da mídia eletrônica. Autora: Sueli Schiavo. No prelo, 2018. Link: https://www.unip.br/presencial/ensino/pos_graduacao/strictosensu/comunicacao/dissertacoes.aspx


 

Newsletter

Receba as nossas notícias e novidades em seu e-mail:

Parceiros