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Adoecer e o Processo de Individuação

 

O processo de individuação, por ser arquetípico, ocorre do universal para o particular, acontece com a colaboração do Ego que, na maioria das vezes, traz mecanismos de defesa contrários a este processo. É o religar do Ego (centro da consciência) ao Self (Centro da Totalidade, abarcando Consciente e Inconsciente) e, nesta trajetória, o Ego precisa servir a algo maior, ao Self. Quando isto não acontece, significa que não estamos no caminho de nosso Chamado, então, como forma de reparar o amor próprio, de voltarmos ao nosso processo de individuação, podemos adoecer ou mesmo morrer.

O cerne da Psicologia Junguiana é a individuação e este é o processo de criar e ampliar a consciência. A tomada de consciência vem acompanhada de imensa dor, uma vez que não é fácil ter consciência, porque isto implica em fazer escolhas, tomar decisões e assumir a responsabilidade pelas escolhas feitas. Escolher implica em abrir mão de alguma coisa em prol de outra, implica em dor e sofrimento.

A proposta de Jung, de uma visão integral do ser humano, teve importante contribuição no campo da psicossomática. Tendo por base seus estudos empíricos, mais especificamente a associação de palavras utilizada em pacientes histéricos, foi-lhe possível observar que estes pacientes desenvolviam uma semelhante personalidade mórbida, demonstrando um querer ser/estar doente (JUNG, 2011), o que lhe permitiu concluir que os sintomas tinham origem nos complexos, levando as pessoas ao adoecimento, sendo, portanto, psique e corpo necessários de serem compreendidos em sua integridade. Neste contexto, tornou-se possível dizer que toda doença é psicossomática, formada por psique e soma, mente e corpo.

Ramos (2006) observou que a expressões do fenômeno psique-corpo e suas alterações fisiológicas sincrônicas, se davam por meio de um complexo que se manifesta, ajudando a uma compreensão mais ampla da doença.

O corpo é a visibilidade da alma, da psique, e a alma é a experiência psicológica do corpo. Os sintomas físicos são retratos simbólicos do complexo patológico. (JUNG, 2011).

Todo sintoma ou fenômeno de crise que mobiliza um indivíduo, vem como possibilidade de tomada de consciência. O sintoma atua como uma proteção do Self, do Sagrado, para com o indivíduo. Como tentativa de se entender e se ressignificar a doença, há de se perguntar: "o que este sintoma está me impedindo de fazer e o que ele está me levando a fazer? ". É preciso entender qual o sentido deste sintoma, naquele determinado momento, na vida da pessoa.

A doença causa um mal-estar no doente e este mal-estar significa que não se está onde se deveria estar. Novamente é preciso se fazer mais perguntas: "onde eu queria/deveria estar que não estou? ". Se não estamos bem onde estamos, se não estamos onde deveríamos/gostaríamos de estar, sentimo-nos mal e temos mal-estar. Se trabalhamos, por exemplo, em um lugar onde não conseguimos mais engolir as coisas que nos dizem e nos fazem, temos vômitos, pois, para reverter o engolido é necessário vomitar o que não conseguimos engolir. O estômago é o lugar de recepção das coisas, por isso, comumente tão acometido quando não conseguimos digerir as coisas. Não vomitamos comidas, vomitamos palavras. Vomitamos símbolos. Precisamos refletir sobre o que nos intoxicou de verdade, o que está por nós sendo rejeitado. Muitas vezes a doença é um pedido de cura do indivíduo, quer tirá-lo de onde ele está, quer libertá-lo, curá-lo.

Toda crise nos desperta para o Sagrado, nos chama para uma retomada de consciência, pois, cada escolha que fazemos, nos faz. Não podemos simplesmente servir aos outros, sermos apenas servos, temos que ser servos felizes ao que nos submetemos, do contrário, seremos infelizes e ineficientes e adoeceremos.

Não diferente do que era na antiguidade, o corpo continua sendo o lugar do mal, só que não mais acoitado com chicotes e, sim, martirizado de outras formas, sendo, por exemplo, a doença advinda como consequência do pecado e merecimento, como forma de autopunição. A doença é muitas vezes uma penitência, como no mito do herói, onde a pessoa se vê como um herói decadente e se pune. A dor pode ser vista como um castigo, como um demônio, é a sombra atuando. Para Platão a dor era proveniente dos maus espíritos e dos Deuses.

O corpo é um templo, um território Sagrado, com atributo psíquico e espiritual, e lança sintomas para que possa ser ouvido. A subjetividade e os aspectos psicológicos estão presentes em todas as doenças. A psique cria a partir da interpretação e são os complexos que interpretam, logo, para se encontrar a cura, é preciso ressignificar o complexo.

Para que se tenha o sintoma, é necessário que haja um estilo dominante na consciência, que haja uma cisão. A cisão ocorre quando se começa a desagregar (ou é isto ou é aquilo, quero ou não quero) e o estilo que ganhar é o que vai para consciência, sendo assombrado pelo que ficou na inconsciência. O ideal é que estes estilos troquem de posição, estejam equiparados e não polarizados, podendo ora ser um e ora o outro a prevalecer, a escolher, sem necessariamente se ter uma rigidez, um determinado padrão a se seguir, pois, de outra forma, virará sintoma. É a intensidade que promove a cisão e faz o sintoma e, se isto acontece, para reestabelecer a saúde, o padrão dominante tem que descer aos infernos, recuperar o que aparentemente não tinha valor e subir de volta a consciência, sendo outro padrão agora, não mais o que estava na consciência e tão pouco o que estava na inconsciência, mas outro.

Somos compostos por pares de opostos como luz e sombra, amor e poder, bem e mal e, quando ocorre a unilateralização de um dos polos, vem a doença como tentativa de reestabelecer a saúde. O literalismo é suicida, mata os outros sentidos. A literalidade implica em perda da capacidade simbólica, o que significa regressão da consciência. A literalidade gera a paranoia.

O que determina o padrão de saúde, é o re-ligare, o estar ligado a Deus, ao Sagrado, ao Self. Saúde e doença podem ser vistas como imagens simbólicas, sendo a doença uma evidente disfunção no eixo Ego-Self. Compreender e tornar consciente estes símbolos, ajudará na ampliação da consciência e na integração dos conteúdos inconscientes, religando o Ego ao seu eixo com o Self, tendo sido a doença um caminho para restaurar a saúde, atuando diretamente no processo de individuação.

 

Andreia Araujo - Psicóloga Clínica, Analista Junguiana em Formação e Especialista em Psicologia Junguiana e Psicossomática pelo IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa.

Contatos: 11 99730-8737 / deh.faraujo@gmail.com - Vila Mariana/SP e Santo André/SP.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

_____________. A Prática da psicoterapia. 16 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

_____________. Arquétipos do Inconsciente Coletivo, 11 ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

_____________. Estudos Experimentais. 2a. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.

_____________. Psicologia do Inconsciente. 24 ed. Petrópolis, Vozes 2014.                  

RAMOS, Denise Gimenez. A Psique do Corpo: A Dimensão Simbólica da Doença. 3ª. Ed. São Paulo, Summus, 2006.


 

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