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Estar na vida para existir ou para atuar? Uma jornada com Vincent Van Gogh.

Vincent Van Gogh é considerado um dos maiores pintores da história. Holandês, era filho de um pai pastor protestante e mãe do lar. Viveu apenas 37 anos, nascendo em 1853 e morrendo em 1890, após uma tentativa de suicídio, inicialmente, malsucedida, que o deixou agonizando por 3 dias, até seu falecimento.

Viver 37 anos foi o suficiente para que ele produzisse obras atemporais, como “Os comedores de batatas” (minha pintura predileta) ou “Noite estrelada” (uma das mais populares).

Contudo, em vida, Vincent vendeu apenas 1 quadro. Exatamente, apenas 1 quadro. Avançando para os dias atuais, na capital holandesa, em Amsterdam, há um museu com 3 andares dedicado inteiramente à sua obra, em que a família Van Gogh é curadora.

Sua obra só recebeu o devido mérito, após a sua morte. Curiosamente a sua cunhada, esposa de seu amado irmão Theo Van Gogh, foi a responsável por apresentar suas pinturas ao mundo e colocá-las no patamar conhecido.

Não sei dizer se Vincent viveu para ser famoso ou para alimentar exigências sociais, que, em última instância, na verdade são projeções de nossa sombra, que em vez de nos libertar, nos aprisionam, numa busca insaciável por dinheiro e/ou poder.

E se falo em dinheiro e poder, não tenho como referência a política, algo tão negativamente em moda no Brasil. Me refiro às necessidades do dia a dia mesmo, do homem e da mulher comuns, de ter um bom emprego, de ter um bom cargo, de ter uma casa própria, de dar uma boa educação para os filhos, ou seja, de ser o “Super Homem” ou a “Mulher Maravilha”.

Teria Vincent esses mesmos almejos desse homem médio?

Bem, Vincent era um profundo estudioso da pintura. Seus autorretratos, eram, a priori, estudos e combinações de cores que ele fazia constantemente. Estudou pintura oriental, especialmente a japonesa, e desenhos a lápis. E sim, ele queria incansavelmente ser reconhecido por sua obra, e jamais saiu de seu trilho, de seu “chamado”.

Optar por essa vida não foi fácil. Ele enfrentou a miserabilidade, doenças mentais, desprezo social, e até chegou a se internar voluntariamente num hospital psiquiátrico. Só não sucumbiu antes dos 37 anos, pelo apoio incondicional que tinha de seu irmão Theo, seu grande amigo, incentivador e patrocinador.

Talvez, meio que sem querer, Vincent tenha passado por essa existência, tal qual outros grandes humanos, para nos provocar, e para nos tirar de uma vida repleta de projeções e de aprisionamento em nossas personas.

Me parece que estamos todos vivendo e encenando um grande teatro, onde procuramos personagens que sustentam nossas vicissitudes e manias. Em vez de abandonarmos nossas personas, buscamos novas, que suspostamente serão as “curas” paras os ciclos negativos que a anterior criou.

No fim das contas, o que fazemos, é uma repetição de padrões, um loop infinito, que nos deixa anestesiados, criando uma legião de deprimidos, ansiosos, bipolares e por aí vai.

Se por um lado a depressão, a síndrome do pânico e todas outras doenças que acometem o ser humano médio, aquele que vive pelas exigências sociais, são terríveis em suas consequências, por outro lado, são chamados da alma, chamados para repensarmos e ressignificarmos nossas vidas, mudarmos os nossos padrões.

Contudo, o que temos feito, é buscar no receituário médico, uma lista de comprimidos que como por milagre, nos tirarão desse ciclo sem fim. Sim, estamos só vivendo e não existindo.

Quantas pessoas você conhece, com boas condições financeiras, bons empregos, bons valores, que são meramente repetidoras de padrões? Se posicionam como seres pensantes, inteligentes, críticos, mas que pouco sabem usar sequer o idioma português.

Seguramente, poderíamos tratar nossa situação atual como uma epidemia, uma vez que a cada 5 pessoas que converso, duas ou três possui algum sintoma psíquico, ou faz uso regular de algum medicamento psicotrópico.

Mas não trataremos isso como epidemia, por duas razões:

1)      Minhas conversas informais não possuem relevância estatística;

2)      Temos um modelo de educação, que não valoriza o bom repertório, que não contempla um engrandecimento cultural, filosófico, que não discute os benefícios da cooperação versus competição, que não tem em sua agenda a educação emocional, dentre outras coisas.

Sendo assim, trataríamos como epidemia as doenças que nós mesmos estamos criando? Sem dúvidas, não.

Porém, se voltamos ao Vincent, ele jamais parou de construir a sua obra porque havia inflexões políticas ou exigências sociais a serem seguidas. Ele simplesmente escutou o seu “chamado” e seguiu sua jornada.

Mas para nós, seres humanos médios, a saída para tudo isso, primeiramente, é nos conscientizarmos de nossa pequenez perante a vida, despindo-nos de nossas personas, que rodeadas de celulares caros, carros novos e roupas de grife, sentem-se enormes, mas não passam de personagens anônimos no palco de Gaia.

Precisamos abandonar o suposto senso crítico expressado nas redes sociais, para fazer uma verdadeira varredura emocional em nossas vidas. Precisamos “escutar” nossas depressões e ansiedades, e nos perguntarmos para onde elas querem nos levar, em vez de simplesmente querermos nos livrar delas.

Parafraseando uma amiga psicóloga, Vincent precisou morrer para existir. Por mais fúnebre que seja, ainda me parece mais acalentador do que viver uma encenação vazia, onde o autoconhecimento sai de cena para que o acúmulo de coisas e bens seja o protagonista, gerando uma vida vazia, empobrecida espiritual e emocionalmente.

Pensando agora com calma, Vincent não precisou morrer para existir. Ele sempre existiu, e sempre existirá através dos tempos. Diferentemente de nós, que se continuarmos aprisionados em nossas personas e fixados em nossas projeções sombrias, no fim das contas, nunca seremos nada além de indigentes emocionais.

 

Rafael Rodrigues de Souza, Psicólogo, Analista em Formação do IJEP

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