REFLEXÕES JUNGUIANAS SOBRE ALGUNS ASPECTOS RELACIONADOS AOS HONORÁRIOS NO CAMPO TRANSFERENCIAL.

Reflexões junguianas sobre alguns aspectos relacionados aos honorários no campo transferencial. Psicologia Junguiana

Dinheiro costuma ser tabu em nossa sociedade e na psicoterapia não é diferente. Falar de dinheiro costuma vir acompanhado de sentimentos de culpa, vergonha e outros desconfortos.  Meu intuito com este artigo é trazer para nossa reflexão alguns aspectos transferenciais e contratransferenciais que acabam surgindo a partir da necessidade prática e simbólica de lidar com o tema “dinheiro” na terapia e, de alguma forma, ajudar especialmente os analistas em formação e aqueles que têm menos experiência, a olharem para isso de forma a tomar consciência das possíveis implicações desse tema no processo analítico.

A transferência e a contratransferência são formas de projeções que ocorrem na relação terapêutica. Elas podem se expressar de forma positiva (com sentimentos de amor e admiração, por exemplo); ou de forma negativa (com sentimentos de raiva, inveja, resistência, etc.) dependendo dos traços inconscientes e emocionais que surgem durante a terapia e que refletem a história pessoal dos parceiros analíticos. A transferência refere-se às projeções do paciente dirigidas ao analista, enquanto a contratransferência refere-se às sensações, sentimentos e percepções inconscientes do terapeuta consteladas de modo particular em relação a cada paciente.

A ideia de escrever sobre este tema surgiu após a leitura do livro O Encontro Analítico (2011) de Mario Jacoby, especificamente no capítulo A contratransferência e as necessidades do analista, onde ele debate a relação dos honorários com a contratransferência. Neste capítulo, inclusive, ele menciona que Jung “nada teve a dizer sobre o assunto” (JACOBY, 2011, p.138). Mesmo mediante esta afirmação, decidi fazer uma busca por palavras-chave nas Obras Completas de Jung para me informar melhor sobre esse apontamento de Jacoby. Efetuei uma busca dos seguintes termos: honorários, remuneração, pagamento, e de fato, nada!  Nos índices gerais do volumes, busquei a palavra dinheiro e finalmente havia poucas menções no volume  18/2 (parágrafos 1.320, 1.327, 1.335). Mas ao acessá-los, uma nova decepção surgiu. Tais menções da palavra “dinheiro” estavam relacionadas a organizações sociais. Outras menções sobre dinheiro estavam relacionadas à análise de sonhos de pacientes, mas não ao manejo terapêutico do dinheiro na situação analítica.   

Intrigada, conversei com minha analista didata que concordou com Jacoby e confirmou o que eu mesma havia acabado de constatar fazendo a busca nas obras completas. Jung não havia tratado do tema na perspectiva transferencial. Perguntei-me se esse tema teria sido tabu para Jung.

Fazendo uma revisão bibliográfica sobre o tema, a hipótese do tabu ganhou mais sentido em minha análise, pois acabei me deparando com uma escassez de material. Além disso, as poucas referências encontradas em artigos publicados tinham algo em comum: mencionavam justamente a dificuldade de encontrar alguma literatura sobre o assunto, além de apontar que em geral os psicoterapeutas junguianos não recebiam orientações sobre como lidar com a cobrança de honorários em sua prática na clínica privada, assim como para lidar com as possíveis consequências de tais faltas na relação com o paciente. A falta da abordagem ao tema se estende, segundo os textos consultados, também ao processo de formação teórica dos psicoterapeutas, sendo abordado exclusivamente no âmbito da supervisão clínica.

Entendo, entretanto, que a questão econômica faz parte do processo terapêutico, e por este motivo deveria ser objeto de uma discussão teórica mais ampla na literatura junguiana. Evitar abordá-la reforça ainda mais a condição de tabu, podendo trazer resultados transferenciais e contratransferências que podem ser prejudiciais à análise, revelando e/ou agravando conflitos emocionais tanto para o analisando como para o analista, afinal, o dinheiro é um símbolo coletivo que condiciona e participa de nossa vida cotidiana de múltiplas formas.

Considerando especificamente os impactos desse tabu para o analista, sentimentos sombrios em relação à remuneração do trabalho podem interferir na sua prática clínica. As supervisões clínicas e a análise didática são os meios para ajudar o analista a elaborar o tema, ajudando-o a lidar melhor com isso na sua prática profissional.

É fato que precisamos atender pacientes para nos desenvolvermos profissionalmente, e como consequência, podemos nos tornar ansiosos tanto para conseguir novos pacientes, quanto para manter os já existentes, e desta forma, corremos sérios riscos de ficar inconscientes de pontos cegos na relação analítica.  Sobre isso, Jacoby afirma:

        Essa ansiedade pode estimular o analista a fazer o melhor que pode pelo paciente. No entanto, como ele (analista) é, muitas vezes, financeiramente dependente da continuidade da análise como os pacientes, ele poderá, também, tornar-se dependente demais em relação às suas demandas. (JACOBY, 2011, p. 136)

 

Esta dependência, segundo ele, pode ser observada através de diversas expressões de contratransferência que apresento abaixo.

 

  1. Perda da liberdade para gerar frustações inevitáveis.

Minha primeira paciente, uma mulher de meia idade, em tratamento comigo há aproximadamente 1 ano foi diagnosticada com um câncer, segundo ela muito severo, e incurável. Senti uma forte insegurança em dar andamento ao tratamento e levei imediatamente o seu caso à supervisão. Lá, fui apresentada à uma possibilidade terapêutica que não havia concebido anteriormente: ajudar a minha paciente a suportar o período de tratamento que à levaria ao encontro com a morte. Frente a esta orientação, me senti ainda mais insegura, pois ela claramente esperava de mim uma postura de apoiá-la a superar a doença e se curar e não desejava entrar nos aspectos simbólicos da mesma.  Talvez a proposta tenha sido precoce e talvez o ego dela não estivesse preparado para isto. A continuidade do processo analítico acabou ficando comprometida e ela decidiu, então, terminar a análise e dar andamento aos tratamentos de quimioterapia e radioterapia sem acompanhamento psicológico. Exatamente um ano após o diagnóstico, ela veio a falecer. No caso apresentado, ao buscar analisar a sua doença através dos aspectos simbólicos, acabei gerando frustração e não aceitou bem a linha que estava propondo. Muitas vezes os terapeutas não se sentem livres para gerar frustrações, algumas delas inevitáveis.

 

  1. Ser agradável ou compreensivo demais.

O início de um processo analítico é marcado por entrevistas preliminares, e ao final delas, é formalizado o “Acordo Analítico” entre analista e analisando, onde são determinadas as questões relativas ao local, frequência, horários e preço das sessões, férias, pagamentos, faltas, atrasos, etc. Claro que tal acordo pode trazer espaço para imprevistos e reconsiderações, mas um excesso de permissividade do analista pode comprometer o acordo

 

  1. Forçar uma transferência positiva precoce.

Na análise, é importante que haja espaço para uma transferência positiva e para a ressonância empática, mas tais fenômenos são construídos de forma progressiva gerando a confiança no vínculo. Pode acontecer que tal construção seja forçada inconscientemente pelo analista que tenta desta forma garantir uma continuidade do processo, conforme explica Jacoby (2011, p. 137).  Caso tal conduta seja adotada de modo consciente, o analista estará clinicando, em grande parte, em proveito próprio, o que caracteriza um aspecto extremamente sombrio em termos contratransferenciais e éticos, algo que já foi problematizado também por A. G. Craig (2004) quando discorreu sobre a sombra em profissões ligadas ao cuidado.  

Por ser um tema delicado, a questão dos honorários pode acabar por constelar diversos complexos no analista, assim como diversos temores de ser insuficiente para seus analisandos. Se o assunto estiver mal elaborado por parte do analista, podem surgir sentimentos de menos valia, inferioridade, culpa, raiva, etc. Sobre estes sentimentos, ilustro com uma situação vivida no início dos meus atendimentos.     

Ofereci atender gratuitamente uma aluna que já frequentava outra atividade terapêutica coordenada por mim. Achei que atendê-la poderia ser uma oportunidade de obter experiência e, ao mesmo tempo, poderia auxiliá-la. Sendo assim, acordamos um atendimento semanal “gratuito”. À medida que a terapia acontecia, fui descobrindo que, embora ela fosse proprietária de muitos imóveis, sua dificuldade de lidar com o dinheiro a deixava em situação financeira complicada e passamos a discutir sobre isto. Como ela não fazia a cobrança adequada de seus aluguéis (assim como eu não estava fazendo a cobrança adequada de meus honorários), muitos deles estavam desocupados e em processo de degradação. Portanto, ela não tinha como reformá-los para estarem em condições de alugá-los, o que a mantinha sombriamente num estado de penúria, apesar de ser proprietária de imóveis, como falei. Eu buscava na terapia mais informações sobre os imóveis e a sua condição financeira, a fim de concluir se realmente ela não teria condições de me pagar os honorários. Neste período da terapia eu ia me sentindo cada vez mais insatisfeita pois, em termos contratransferenciais, eu fantasiava que se ela resolvesse seu tema dos aluguéis, ela estaria em melhores condições financeiras e desta forma, poderia começar a pagar pela análise. Percebi, então, que estava clinicando a meu favor e não em favor da paciente, e ao propor uma mudança no contrato mediante a exigência de pelo menos um pagamento simbólico, houve então uma interrupção na análise por parte da paciente alegando que não tinha como despender mais nenhum pagamento mesmo que simbólico. Afirmou que valorizava o meu trabalho, honrava o processo analítico que havia passado e por isto não poderia continuar sem pagar. A partir deste caso, pude perceber claramente que o significado simbólico do dinheiro deve ser visto como objeto de discussão na relação entre psicoterapeuta e cliente, o que não consegui fazer de forma adequada com esta paciente.

 

Mas, como estabelecer um valor para esta troca? 

Segundo Waldemar Magaldi, “O dinheiro possibilita ao ser humano aferir e delinear uma relação dinâmica entre todas as pessoas.” (2009, p. 159), e desta forma, esse elemento concreto que participa de nossa vida cotidiana é também um vetor de trocas simbólicas.

A formação de analista é composta por estudos teóricos (necessidade de frequentar diversos cursos), horas de supervisão clínica e de análise pessoal. Trata-se de um processo custoso, tanto pelo investimento de tempo, quanto financeiro e pessoal. Muitos profissionais em início de carreira costumam ter dificuldades em valorizar seu trabalho, cobrando um valor mais baixo. Por trás disso, podem estar sentimentos de culpa e ansiedade por supostos erros, pois imaginam não ter a experiência necessária e/ou duvidam de sua competência.  Como compensação, de modo mais ou menos consciente, podem sentir necessidade de agradar ou ter medo de “perder o paciente”, conforme já citado anteriormente. Então, em que termos um analista pode estabelecer um valor para esta troca profissional que comporta aspectos tanto objetivos como subjetivos, tanto para o paciente como para o analista?  

Jacoby (2011, p. 139) apresenta algumas opções para essa questão complexa: “Um analista cobra ‘aquilo que o mercado parece suportar’; outro, “aquilo que ele acredita que seja o valor de sua própria energia”; um terceiro, “aquilo que o paciente pode pagar”. Ele defende que seja importante o pagamento de honorários devido ao simbolismo de troca de energia na troca do dinheiro, afinal, “nós exercemos nossa energia para ganhar dinheiro e o colocamos onde nossa energia quer ir” (JACOBY, 2011, p.139). O autor também ressalta algumas armadilhas transferenciais nos casos de não pagamento ou pagamento muito baixo das sessões de análise. Essa situação, segundo ele, pode tanto levar o paciente a sentir que o analista seja de fato uma boa mãe, como alguém a quem o paciente tenha que ser grato (JACOBY, 2011, p. 140). Outra possibilidade é que o paciente tenha a sensação de que sua análise tem pouco valor, ou mesmo que há algo de errado com o status do analista (JACOBY, 2011, p. 141). Pode até mesmo gerar no paciente uma sensação de estar levando vantagem ou de sentir-se preferido em relação aos demais que seu terapeuta atende.

Por outro lado, Jacoby aborda o fato de que pacientes que pagam honorários altos podem ser “vivenciados pelo analista como uma ameaça maior do que aqueles que pagam menos” (JACOBY, 2011, p.141). No início de meus atendimentos, a maioria dos meus pacientes chegavam através da clínica social, e como consequência, os honorários eram relativamente inferiores ao que eu considerava como “meu valor ideal”. Apenas uma paciente me pagava o mencionado valor: ela era uma mulher bem-sucedida profissionalmente e de muita capacidade intelectual. Percebia que o meu processo com ela era muito mais conflitante para mim como analista. Muitas vezes me sentia inferiorizada, e me cobrava que, a cada sessão, eu teria que entregar-lhe um insight extraordinário; quando isso não ocorria, eu interpretava como “uma sessão improdutiva”. Tratava-se de um fenômeno de contratransferência onde entendi que meu ideal de ego me ameaçava com medo e com um sentimento de “não valer todo aquele dinheiro”.      

Percebo em minha experiência de formação como analista que, assim como eu, vários colegas estão fazendo uma transição de carreira, e passam por um dilema e insegurança frente ao seu sustento. Muitos se veem obrigados a trabalhar em outras áreas para manterem seus rendimentos. Jacoby (2011, p. 137) defende que ter um emprego de meio período possa ser uma possibilidade para que o analista se sinta mais seguro financeiramente e possa resistir de melhor forma às armadilhas contratransferenciais relacionadas ao tema dinheiro no início de sua formação e prática clínica. 

Com o advento da ampliação do formato de atendimento à distância, mais um elemento foi incluído para compor essa possibilidade de desenvolvimento profissional do analista, pois muitos iniciantes tiveram a oportunidade de começar os atendimentos sem os elevados custos de aluguéis de consultório. Pelo mesmo motivo, outros puderam ampliar a sua cartela de pacientes tendo a oportunidade de baixar os custos do atendimento e desta forma adequar-se à condição socioeconômica de crise que o país está enfrentando em decorrência da pandemia.

 

        Não se deve cobrar nem mais nem menos do que se pode engolir.  Não é preciso dizer que os honorários têm que ser flexíveis para acomodar a verdadeira situação do paciente.  Creio que é importante ter um preço padrão de acordo com os costumes gerais e, de acordo com a própria autoavaliação, o próprio padrão como analista.  A partir daí, pode-se adaptar o padrão para necessidades individuais. Eu normalmente digo aos pacientes o meu preço padrão, e caso eles não possam pagá-lo, eu lhes digo em que base eu os aceitaria para análise de qualquer modo e em que bases eu não posso aceitá-los.  Digo àqueles que só podem pagar um valor baixo que assim que suas circunstâncias financeiras melhorarem, eu cobrei mais. (JACOBY, 2011, p.142)

 

O Dinheiro como símbolo.

É importante para a prática analítica compreender os significados clássicos do dinheiro, mas também investigar as suas associações e significados tanto no contexto do paciente quanto do analista. A relação analítica irá refletir e se movimentar, dialeticamente, com a influência dos significados singulares de que como cada um simboliza o recebimento e o pagamento dos honorários.

Uma cliente frequentava a análise através de um   programa da clínica social que ofereço às alunas e frequentadoras do meu espaço terapêutico. Ela já havia feito outras atividades terapêuticas comigo e devido à sua condição, eu oferecia incentivos através de descontos para que ela participasse das atividades através de bolsas parciais ou totais. Um dos temas centrais era sobre a sua baixa autoestima e sentimento de menos valia, pois havia deixado sua carreira na literatura e atualmente se dedicava aos cuidados da casa e dos filhos. O sustento da família vinha de seu marido que trabalhava como gerente em uma loja. Somente após um ano de terapia, ela confessou que era ela mesma a proprietária da loja que havia herdado de seu pai ainda vivo. Quando esse novo fato veio à tona na terapia, começamos a discutir mais sobre a dificuldade de ela assumir os seus recursos, e o que estaria por trás de tal ocultação. A abordagem do tema das finanças gerou uma forte resistência na paciente e em pouco tempo a terapia foi encerrada por ela com uma justificativa relacionada a uma despesa familiar recentemente incorporada. Infelizmente, não tivemos tempo para aprofundar as elaborações, mas da minha parte, senti que a revelação pesou para tal interrupção. Mais uma vez percebi a importância de aprofundar o significado do dinheiro na terapia, que neste caso se apresentava como um tabu entre mim e a paciente.

Concluo, assim, que não existe uma fórmula para o manejo dos honorários, mas certamente os sentimentos sombrios do analista e do paciente em relação ao dinheiro podem interferir gerando culpa, raiva e desvalorização tanto do terapeuta quanto do processo analítico, além do surgimento de impasses que podem levar a possíveis interrupções.

 

Erika Mendel – Membro Analista em Formação pelo IJEP [email protected]

Santina Rodrigues Oliveira - Analista Didata

 

Ilustração:

Stephane Galtier @stephanegaltier.art

Referências:

GROSS, Camile; THEODORO, Maycoln- A cobrança dos honorários na prática clínica por psicoterapeutas: uma revisão de literatura. In: Aletheia,  n.29. Canoas, 2009. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-03942009000100010. Acesso em: 14 nov. 2021.

GROSS, Camile; THEODORO, Maycoln. In: A Cobrança de honorários na prática clínica. Disponível em: https://docero.tips/doc/a-cobrana-de-honorarios-na-pratica-clinica-xn2gyrz7n5. Acesso em: 14 nov. 2021.

GUGGENBÜHL-CRAIG, Adolf. O poder na psicoterapia e na medicina, serviço social, sacerdócio e magistério. São Paulo: Ed. Paulus, 2004.

JACOBY, Mario. O Encontro analítico. Petrópolis: Vozes, 2011.

JUNG, Carl Gustav. Índices gerais: onomástico e analítico: volume 20 / C.G. Jung; [compilação da Editora]. – Petrópolis: Vozes, 2011. 

MAGALDI FILHO, Waldemar. Dinheiro, saúde e sagrado. São Paulo: Eleva Cultural, 2009.

SONODA, Katerine. O método psicanalítico e as condições da análise (e da pesquisa clínica): Algumas recomendações. In: Revista aSEPHallus. Disponível em: http://www.isepol.com/asephallus/numero_26/pdf/5_artigo_katerine_da_cruz_leal_sonoda.pdf. Acesso em: 14 nov. 2021

 


Erika Mendel - 10/12/2021