ADOECIMENTO DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE

Adoecimento dos Profissionais de Saúde

 

Rita de Cássia Macieira

 

A criação de um espaço onde os estudantes da área de saúde possam trocar experiências, refletir sobre suas próprias emoções e sentimentos, é uma necessidade e um instrumento de aprendizagem. Leva os estes futuros profissionais a se interessarem pelas relações humanas em geral e pela relação profissional-paciente, em particular. Descobrir o colorido emocional, o sofrimento psíquico, a história da vida de seus pacientes, altera suas visões do binômio saúde-doença.

 

 

Em conseqüência de uma maior divulgação do campo de trabalho da Psico-Oncologia e da significância destes conhecimentos no atendimento aos pacientes com câncer, os profissionais com formação nesta especialidade têm atuado mais em equipes multidiciplinares. Através destas experiências, têm sentido crescer a necessidade de instruir e municiar aqueles que se encontram em formação, visando aspectos preventivos.

 

Primeiramente, o termo “cuidador” foi identificado como se referindo àquele familiar que assume os cuidados com o paciente. Posteriormente e cada vez mais, este conceito tem se ampliado para abranger os profissionais de saúde envolvidos no tratamento.

 

Estudo descritivo e retrospectivo sobre adoecimento, realizado por Murofesse (2004)1 com 4307 profissionais em 23 unidades de saúde da Fundação Hospitalar Estadual de Minas Gerais, Divisão de Saúde do Trabalhador, evidenciou  que os problemas de saúde dos trabalhadores se distribuíram nos seguintes grupos: fatores que influenciam o estado de saúde (20,15%), doenças do sistema osteomuscular (11,83%), transtornos mentais e comportamentais (11,40%), doenças respiratórias (10,69%), doenças do aparelho circulatório (8,62%) e lesões, envenenamento e causas externas (8,25%). Quando comparados os diagnósticos encontrados às doenças relacionadas ao trabalho da lista do Ministério da Saúde foi constatado que a força de trabalho da enfermagem estudada está sendo consumida por danos que afetam o corpo e a mente, em decorrência de enfermidades causadas por violência oculta no trabalho, conhecidas também como doenças da modernidade tais como: LER/DORT, depressão, angústia, estresse, alcoolismo, hipertensão arterial e infarto agudo do miocárdio. Constatou-se que as instituições acompanham as mudanças processadas no mundo do trabalho adquirindo novas tecnologias e equipamentos, promovendo mudanças organizacionais com novas modalidades de assistência e modelos gerenciais. No entanto, destacou que 55,7% dos trabalhadores de enfermagem possuíam vínculo de trabalho temporário, ou seja, relações precárias de trabalho, sem direitos e garantias trabalhistas e assistenciais. Isto constitui um fator psicossocial de adoecimento.

 

Centofanti e cols (2004)2  constatam que a síndrome de estafa profissional (“burn out”) é freqüente entre os cancerologistas brasileiros e que a prevenção desta síndrome é fundamental para a manutenção da qualidade do atendimento dos pacientes com câncer.

 

A síndrome do “burn out” é caracterizada pela exaustão física e intelectual, pela despersonalização e pela sensação de fracasso pessoal e profissional. Os sintomas são: fadiga física, intelectual e sexual prolongadas, sensação de cansaço e variadas perturbações psicossomáticas. Desmotivação, auto-avaliação negativa, sentimentos de incompetência, insatisfação profissional e dificuldades de relacionamentos pessoais e sociais são também bastante comuns.

 

Carvalho (2004)3fala da incidência de patologias psíquicas em estudantes de medicina e médicos e sobre as principais síndromes que podem ocorrer em profissionais de saúde, submetidos a condições desfavoráveis de trabalho. São elas: comportamentos aditivos (abuso de álcool e drogas); sofrimento nas relações interpessoais (divórcios e ruptura de relações afetivas); comportamentos psicopatológicos (ansiedade, depressão e suicídio) e disfunção profissional (insatisfação, erros, afastamento, perda da compaixão, etc). Citando Martins (1989), traz uma estatística aterradora: entre os estudantes de medicina, esta sintomatologia se agrava com a progressão do curso, sendo de 11% no terceiro ano e chegando a 74% no quinto ano.

 

Para Dame Cicely Saunders “O sofrimento somente é intolerável quando ninguém cuida”. A pergunta que se faz necessária agora é: como estão sendo cuidados nossos futuros profissionais de saúde, aqueles que terão sob seus cuidados, em um futuro bastante próximo, a vida de tantos? Estarão eles sendo devidamente orientados em suas dificuldades? Seus sofrimentos têm sido ouvidos e suas necessidades atendidas? E qual o papel daqueles que, sendo seus mestres, são também e ao mesmo tempo, seus modelos de identificação?

 

Talvez hoje, devamos começar a pensar na preparação dos futuros cuidadores profissionais, com medidas profiláticas que incluam uma revisão e modificação da formação acadêmica dos médicos, passando de uma visão totalmente curativa para uma postura mais humana, que inclua também os cuidados consigo mesmos e com sua saúde e, ainda, a inclusão da dimensão psicológica na formação do estudante de Medicina.

Para Nogueira-Martins (2002)4, o trabalho de sensibilização do jovem aluno em relação aos seus aspectos psicológicos - motivações para a profissão, idealização do papel de médico, etc. - e as suas reações vivenciais durante o curso de Medicina,  é uma medida de atenção primária, que pode ser concretizada mediante modificações curriculares que incluam, nas escolas médicas, o ensino de Psicologia Médica, centrado nas vicissitudes do curso médico e do exercício da Medicina. O ensino médico que não reflete sobre o ser humano que há no médico, participa de modo altamente prejudicial das deformações adaptativas do futuro profissional. Nas escolas médicas, o discurso enfatiza os deveres e responsabilidades e mantém um eloqüente silêncio sobre os direitos, prerrogativas e limitações do médico.

A criação de um espaço onde os estudantes possam trocar experiências, refletir sobre suas próprias emoções e sentimentos, é uma necessidade e um instrumento de aprendizagem. Leva o estudante a se interessar pelas relações humanas em geral e pela relação médico-paciente, em particular. Descobrir o colorido emocional, o sofrimento psíquico, a história da vida de seu paciente, altera sua visão do binômio saúde-doença.

Do ponto de vista dos alunos, as queixas mais freqüentes são: sobrecarga de trabalhos, falta de tempo, cobranças, cansaço, insegurança e falta de preparo para lidar com situações difíceis e pouco lazer, o que acarreta no aparecimento do processo de estresse. Outras condições podem ser citadas: o contato íntimo e constante com a dor e o sofrimento, lidar com questões emocionais, atender pacientes difíceis, muito queixosos, ou em processo de morte.

Em nossa experiência, notamos que os alunos chegam à faculdade de medicina ainda adolescentes. São jovens esforçados, que lutaram muito para conquistar uma vaga no curso. Idealistas, em sua maioria. No terceiro ano, começam a entrar em contato com aquilo que não conseguirão resolver, enquanto amigos estão se formando em outros cursos e começando a ganhar autonomia. No quinto ano, vêem amigos de outras profissões se auto-sustentarem, constituírem família, enquanto eles permanecem dependentes de seus pais. O último ano representa uma situação dicotômica: a alegria de aproximar-se do momento da formatura e o medo de enfrentar o exame de residência, o mundo profissional e o mercado de trabalho.

O trabalho do professor deveria ser o de facilitador da articulação do conhecimento com experiência vivida. Criar um clima emocional de integração e aprendizagem grupal, ao mesmo tempo em que incentiva a subjetividade no atendimento.

O trabalho de prevenção do adoecimento médico inclui a atenção aos futuros profissionais. C.G. Jung dizia: “eu vou apresentar aquele que fala dentro de você”. O ato terapêutico na relação vincular professor-aluno consiste em re-lembrar o que antes se sabia, compartilhar (compartir o ar = respirar junto, no mesmo sopro) o desejo e o sonho.

    “Se nós, trabalhadores da saúde física e da alma humana, tivermos olhos para enxergar, ouvidos para escutar, palavras para dizer, sentimentos para sentir e uma mente não saturada por preconceitos, de modo a propiciar uma tolerância a conhecimentos provindos de outras fontes para um aprendizado daquilo que não nos é familiar, que difere de nossos valores habituais e ofende nossa ignorância, ficaremos estupefatos diante da riqueza que está ao nosso alcance.”

David Zimerman, 2004


 

 

Referências:

1.Murofuse, NT. O adoecimento dos trabalhadores de enfermagem da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais: reflexo das mudanças do mundo do trabalho, 2004, www.teses.usp.br/teses/disponíveis/ 22/22132/tde-18082004-103448/

2.Centofanti, G ; Del Giglio, A ; Garcia, A P ; Gonçalves, M S ; Monteiro, T A ; Prudente, F V B ; Souza, C M ; Vince, F A H . A Síndrome da Estafa Profissional em Médicos Cancerologistas Brasileiros. In: 29º COMUABC, 2004, Santo André-SP. Arquivos Médicos do ABC, 2004. v. 29. pags. 29-29.

 

3.Carvalho,VA . Cuidados Com o Cuidador, in Pessini,L. Bertachini, L.(orgs.) Humanização e Cuidados Paliativos, S.Paulo, Ed. Loyola, 2004, pags.305-319

 

4. Nogueira-Martins, L.A. - Saúde Mental dos Profissionais de Saúde. In: BOTEGA, N.J. (org.) Prática Psiquiátrica no Hospital Geral: Interconsulta e Emergência. Porto Alegre, Artmed Editora, 2002, pags.130-144

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